Debate sobre ‘fake news’ no Parlamento Europeu põe todos contra eurocéticos

Estrasburgo, França, 14 nov 2018 (Lusa) - O Parlamento Europeu (PE) debateu hoje como travar a influência de interesses externos na campanha para as eleições europeias, com os partidos tradicionais unidos contra a desinformação e os eurocéticos a acusarem-nos de "caça às bruxas".

Em maio de 2019 realizam-se novas eleições para o PE num contexto de subida dos partidos populistas e nacionalistas e de fortes indícios de interferência de atores externos, estatais ou não-estatais, em atos eleitorais como o referendo britânico sobre o 'Brexit' ou as presidenciais norte-americanas.

Apesar disso, o plenário de Estrasburgo contava neste debate com muito poucos dos 751 deputados que nele têm assento, cerca de duas dezenas.

O eurodeputado social-democrata Paulo Rangel abriu o debate, em representação do grupo do Partido Popular Europeu (PPE), frisando que a manipulação política e utilização indevida de dados nas redes sociais "são ameaças à transparência e isenção dos processos eleitorais" e, sobretudo, "não são ameaças virtuais, mas ameaças reais".

"É fundamental que tomemos medidas, medidas para as eleições europeias porque essas são uma urgência, mas medidas que sejam de médio e longo prazo para todos os processos eleitorais", defendeu.

Em representação da Comissão Europeia, Vera Jurova, comissária europeia do Consumo, citou um estudo de opinião do Eurobarómetro que vai ser divulgado "em breve" e de cujas conclusões salientou que 73% dos eleitores europeus estão preocupados com desinformação 'online'.

Jurova sublinhou a importância de ações a longo prazo "para que sociedades europeias sejam mais resilientes", ou capazes de identificar campanhas de desinformação, e que a aposta deve passar pela "literacia mediática", que ajuda os cidadãos a distinguir jornalismo de desinformação e propaganda, e pelo apoio ao jornalismo independente, sem nunca restringir a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão.

O debate entre os eurodeputados polarizou-se entre a esquerda, o centro-esquerda, o centro-direita e a direita, por um lado, e os eurocéticos por outro, com os primeiros a defenderem a necessidade de combater a desinformação e os segundos a acusar o PE de "caça às bruxas".

De um lado falou-se de "ameaça sem precedente" lançada por "atores não-estatais e países terceiros, especialmente a Rússia" e da necessidade de "agir imediatamente", mas também de uma "grande prioridade" para a qual a UE "acordou tarde" e da necessidade de "instrumentos de regulação dos algoritmos", do "uso de dados pessoais" e da 'e-privacidade'.

O eurodeputado socialista português Carlos Zorrinho advertiu que "a ameaça é letal" e a eurodeputada democrata-cristã holandesa Esther de Lange, do PPE, citou, a propósito da vulnerabilidade da democracia, o poeta holandês Lucebert, que afirmou que "Tudo o que é valioso é indefeso".

Do lado dos eurocéticos e populistas a iniciativa foi interpretada como uma resposta dos partidos tradicionais ao "desagrado de nas últimas eleições terem visto tantos votos irem para onde não gostam" que os leva a procurar um "bode expiatório" e a UE criticada por não "dar mais espaço a decisões nacionais" e alertada para se "preparar para eleições de que não vai gostar".

"Esqueçam a Rússia, é uma mensagem do povo para a classe política", disse o eurodeputado britânico eurocético Patrick O'Flynn, do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês).

As intervenções de eurocéticos e populistas suscitaram fortes críticas de vários deputados de outras bancadas, como o eurodeputado socialista dinamarquês Jeppe Kofod a questionar: "Se não agirmos juntos, quantos lugares é que a Rússia vai ter neste parlamento após as eleições?".

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