Desinformação não é um problema exclusivo de África – diretor do Africa Check

Joanesburgo, 12 out 2019 (Lusa) - O diretor-executivo do programa de verificação de factos Africa Check alertou para a desinformação sobre África e garante que este é um problema que "existe em todo o mundo", não exclusivo do continente africano.

"Há muita desinformação sobre África, no geral. (...) Para mim África não chegou tarde à Internet. Claro que o acesso à Internet ainda é um problema, mas acho que temos tendência a generalizar muitas coisas quando falamos do continente", explicou Nogo Makgato à Lusa, numa entrevista telefónica a partir da África do Sul.

"O problema existe em todo o mundo. Não há nada em África que coloque as pessoas mais suscetíveis à desinformação de canais como redes sociais e ferramentas de comunicação", continuou, dando o exemplo dos Estados Unidos, em que as eleições "foram influenciadas por todo o tipo de campanhas 'online'".

Para o responsável do programa, criado em 2012, a forma como a desinformação é recebida e interpretada "é muito semelhante".

"Não acho que seja um problema ligado a problemas de desenvolvimento, à educação, à longa exposição à internet. Acho que é um problema humano", referiu.

O diretor-executivo do Africa Check sublinhou a necessidade de se trabalhar em "estratégias adaptadas a cada país, com base nos canais e no modo como a desinformação é propagada".

Noko Makgato detalhou a forma como trabalha a Africa Check no combate às chamadas 'fake news'.

"Nós acedemos a queixas que nos são identificadas por membros do público como potencialmente enganadoras ou incorretas, então analisamos essas queixas -- há uma metodologia que utilizamos para analisar a veracidade da informação - e contactamos as fontes presentes no que é denunciado (...), aí nós entramos em contacto com os autores das afirmações e investigamos de maneira mais aprofundada", disse Makgato, acrescentando que os resultados são então publicados no site.

Para o responsável do Africa Check, períodos próximos de eleições levam a um disparo da "viralidade das 'fake news'".

"Durante as eleições, a viralidade das 'fake news' disparam. Este ano tivemos eleições em três dos quatro países onde operamos. O Senegal teve eleições, a Nigéria teve eleições e a África do Sul teve eleições. Durante estes períodos, a desinformação entrou em sobremarcha", explicou Noko Makgato.

Segundo o responsável, isto requer "mais do que o normal", obrigando o projeto a colocar "recursos adicionais" e a uma dedicação quase exclusiva da "cobertura das eleições".

O Africa Check realiza um trabalho de preparação da campanha e tenta aferir quais os resultados e promessas cumpridas pelo partido eleito.

"Realizamos trabalho de preparação antes da campanha e, depois, durante a campanha, recolhemos as promessas feitas pelos vários partidos políticos -- em particular os principais. Depois das eleições, analisamos as promessas desses partidos, em particular a do partido vencedor. Além disso, analisamos os manifestos dos partidos", referiu.

Para Noko Makgato, o combate à desinformação em África é moroso.

"Não é algo que se faça da noite para o dia. É preciso muito planeamento", constatou.

Atualmente, o Africa Check atua em quatro países: África do Sul, Nigéria, Quénia e Senegal.

"É aí que fazemos o grosso do nosso trabalho. A nossa metodologia é concentrar os nossos esforços num determinado país, ou então estendê-los a uma região onde esse país possa ter influência ou ser um ator principal, e aí tendemos a limitar o nosso trabalho a isso", disse o responsável.

No entanto, sublinhou, o trabalho do Africa Check não se limita a estes quatro países.

"Temos um programa de apoio a outras organizações de verificação de factos no continente, por isso trabalhamos em parceria com outros para fornecer-lhes as competências", disse.

Noko Makgato defende que uma forma de otimizar o trabalho da verificação de factos passa pela publicação de relatórios e dados oficiais pelas agências estatísticas nacionais dos países do continente.

"Em certas partes do continente [é complicado] aceder à dados credíveis, porque muitas das vezes os dados não estão acessíveis, então lutamos, em particular em partes da África Ocidental, onde temos ainda o desafio de obter dados credíveis de fontes governamentais", constatou Makgato

"Uma das coisas que estamos a tentar implementar no continente é que organismos responsáveis pela criação e produção de informação estatística, que publiquem os resultados na internet, de modo a reduzir a dependência das pessoas em sites questionáveis", concluiu.

O Africa Check foi fundado em 2012 com o apoio da agência France-Presse, e o seu financiamento surge por parte de doações. Entre os principais contribuidores estão a Shuttleworth Foundation, a Bill & Melinda Gates Foundation e a Luminate Group, entre outros, que incluem o Standard Bank e o Facebook.

 

Jorge Faria de Oliveira