Desinformação é agora o principal alvo da verificação de factos – Full Fact

Londres, 20 fev 2019 (Lusa) - A desinformação é hoje o principal alvo do trabalho de verificação de factos destinado a ajudar as pessoas a formarem as suas próprias opiniões, considerou o fundador e diretor da organização de 'factchecking' britânica Full Fact, Will Moy.

"O trabalho de 'factchecking' [verificação de factos] hoje é completamente diferente e, nos últimos anos, passou a estar centrado no combate à desinformação", admitiu, em declarações à Lusa, no âmbito de um trabalho preparatório sobre 'fake news', tema de uma conferência a realizar na quinta-feira, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

A Full Fact é uma organização não governamental fundada em 2010 para responder ao problema da informação imprecisa veiculada por lóbis de empresas ou de organizações não governamentais que, depois, influenciava os decisores políticos.

"Na altura eu estava a trabalhar no parlamento numa função apartidária e lembro-me de ver dossiês dados a deputados que continham alegados factos que eram ou falsos ou muito enganadores. Lembro-me de ficar frustrado por ver algumas dessas informações serem usadas no processo de tomada de decisões", contou à Lusa.

Olhando para o exemplo dos EUA, e juntamente com alguns jornalistas, Moy formou a Full Fact com o objetivo de "ajudar as pessoas a encontrarem informação fiável e a pensarem por elas próprias", confrontando afirmações erradas com factos.

Além de uma página de Internet - https://fullfact.org/ -, consultada no ano passado por 3,5 milhões de pessoas, a Full Fact trabalha com meios de comunicação social, como as televisões BBC ou a ITV, ou jornais como o Daily Telegraph e Evening Standard, oferecendo serviços de verificação de factos.

"Um problema de hoje em dia é que os jornalistas trabalham e publicam mais em menos tempo e em mais canais do que antes, mas o trabalho de 'factchecking' básico é cada vez mais limitado", justificou o diretor.

A organização força frequentemente os autores de afirmações imprecisas a retratarem-se, desde jornais a políticos, incluindo o Governo, e já levou o instituto nacional de estatísticas a mudar a forma como publica dados relativas à imigração, devido à forma frequente como eram mal interpretados.

A produção dos artigos implica pedir a fonte de informação aos autores das declarações, confrontar com fontes oficiais e publicar num formato que seja imparcial e esclarecedor num curto espaço de tempo, para impedir que as declarações sejam repetidas.

"Isso é muito importante, porque as afirmações tornam-se importantes quando são repetidas e as correções nem sempre têm o mesmo impacto que quando a afirmação foi feita a primeira vez", sublinhou.

A Full Fact consegue também fazer a verificação de factos em tempo real durante debates televisivos ou debates no parlamento ao vivo, distribuindo o resultado através da Internet ou nos ecrãs televisivos, usando colaboradores, mas também programas informáticos que identificam palavras chave.

O inquérito Leveson em 2011 e 2012 sobre o funcionamento da comunicação social britânica contribuiu para a abertura dos jornais aceitarem reclamações de terceiros sobre afirmações imprecisas, o que não faziam no passado, permitindo a especialistas e a organizações corrigirem informação falsa.

A prioridade nos últimos anos passou a ser o combate à desinformação nas diferentes plataformas na Internet, desde as redes sociais às aplicações de mensagens, e a necessidade de "reduzir a possibilidade de as pessoas serem expostas a informação imprecisa, distorcida e imprecisa", disse Moy.

"Pensamos existirem algumas áreas de desinformação na Internet onde há provas de que a desinformação pode ser prejudicial, como situações de emergência, durante eleições e na saúde. Por exemplo, sabemos que muitas pessoas recorrem à internet quando recebem um diagnóstico ou têm uma doença e procuram informação para perceber os seus sintomas e como responder. Se for errada, pode ter consequências terríveis", vincou.

Recentemente, a Full Fact iniciou uma colaboração com a rede social Facebook para verificar artigos, imagens e vídeos, de forma a contrariar a partilha de desinformação, um esforço que começa pela ação dos próprios utilizadores.

"No topo de cada publicação estão três pontinhos onde se pode clicar para denunciar o conteúdo. Mas o Facebook vai providenciar-nos uma lista de assuntos de pesquisa frequente e nós vamos escolhê-los para fazer 'factchecking' de forma independente. O Facebook pode assim publicar essa informação a quem fizer busca de temas relacionados", explicou.

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

 

Bruno Manteigas