‘Fake News’ ou informações manipuladas em português suave

Portugal registou alguns casos de 'fake news' nos últimos meses, como o que envolveu a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, por alegadamente usar um relógio avaliado em 20 milhões de euros, ou aquele em que António Costa, o primeiro-ministro, iria processar o repórter da Reuters que fotografou a deputada socialista Isabel Moreira a pintar as unhas, no parlamento, durante o debate do Orçamento do Estado.

Em ano de eleições, europeias em maio e legislativas em outubro, as autoridades vão tentar minimizar os efeitos das "fake news" nas duas disputas eleitorais, através de iniciativas da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS).

O Governo português tem acompanhado o "dossier" em Bruxelas e, em Lisboa, no parlamento, não há nenhuma iniciativa pendente. Nem a que poderia decorrer da resolução do Parlamento Europeu em que apela aos Estados-membros a "adaptarem as regras eleitorais às campanhas na internet ('on-line')", com regras quanto à transparência sobre o financiamento de campanhas.

Em 25 de outubro, o Parlamento Europeu aprovou a referida resolução, enquanto a comissão divulgou um código de boas práticas, que prevê um acordo com várias plataformas eletrónicas.

O DN, que abordou o assunto, noticiou a existência de 'sites' sediados no Canadá, por exemplo, que alojam notícias falsas sobre a política portuguesa, ligados a uma empresa de Santo Tirso.

São, segundo o jornal, dezenas os "sites", associados a páginas no Facebook, com milhares de seguidores, a difundir "fake news", obtendo, igualmente, lucros com anúncios "on-line" -- que aumentam quantos mais forem os "clicks" e "views", ou vistos, nas páginas, embora seja difícil chegar a números concretos.

Concretos são os números, calculados pelo DN em novembro de 2018, sobre os seguidores, no Facebook, dos "sites" portugueses associados às "fake news": dois milhões.

Filipe Carrera, coordenador da Pós-Graduação em Marketing Digital no Instituto Português de Administração e Marketing, em Lisboa, admitiu, em declarações à Lusa, em novembro, que o fenómeno "é incipiente" em Portugal, mas alertou que, mais cedo ou mais tarde, "os grupos extremistas" vão chegar.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) apenas registou uma queixa sobre as chamadas notícias falsas.

E o relatório anual do Reuters Institute de 2018 concluiu que grande parte dos portugueses continua a confiar no que lê nos media, mas mostra preocupação (69,2%) com as chamadas "notícias falsas" para favorecer fins políticos e comerciais.

O que mais preocupa os inquiridos em Portugal são "as notícias em que os factos são manipulados para favorecer uma agenda específica (70,1%), notícias falsas para fins políticos e/ou comerciais (69,2%) e jornalismo de má qualidade (67,5%) devido a erros factuais, cobertura insuficiente de histórias, títulos enganadores ou 'clickbait'", segundo o Reuters Digital News Report.

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsas, manipulação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que ditaram a eleição de Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e, mais recentemente, nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro.

Nuno Simas