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Investigador Gustavo Cardoso desafia partidos a fazer um ‘código ético’ sobre desinformação

O Professor Catedrático de Ciências da Comunicação no ISCTE Gustavo Cardoso durante entrevista à Agência Lusa sobre a desinformação em tempo eleitoral, Lisboa, 13 fevereiro 2024. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 15 DE FEVEREIRO DE 2024). MANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Lisboa, 25 mai 2024 (Lusa) – O sociólogo e especialista em comunicação Gustavo Cardoso considera que os partidos políticos deviam fazer uma espécie de “código ético” sobre a desinformação, para prevenir a sua difusão pelos seus militantes em período eleitoral.

“É um pouco a mesma coisa quando houve a crise [financeira] do Lehman Brothers [2008], em que houve a assunção de um código ético por parte dos gestores sobre práticas empresariais que não deviam ser praticadas”, diz o investigador e professor catedrático do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), numa entrevista à Lusa.

O professor, que coordena o MediaLab, um instituto de estudo de ciências da comunicação integrado no ISCTE, explica que este “código ético” podia ser um “convite da sociedade portuguesa aos partidos” para que estes “fizessem a pedagogia da não utilização de desinformação nas suas práticas perante os seus próprios militantes e os seus simpatizantes”.

O professor vinca que este é apenas “um repto para a discussão”, mas está convencido que em Portugal é preciso que haja esta “transversalidade” e que ela “até seria uma boa forma de tentar combater a polarização, uma vez que teriam todos que assumir essa mesma responsabilização perante a sociedade”.

O apelo de Gustavo Cardoso surge no contexto de um trabalho de parceria com a Comissão Nacional de Eleições (CNE) para o período da campanha para as eleições europeias e a que a Lusa se associou, com o objetivo de detetar e prevenir eventuais notícias falsas durante esta altura.

Segundo o investigador, os partidos pequenos são menos vigilantes em relação a este tema, porque eventualmente têm mais a ganhar do que a perder, mas à medida que crescem preocupam-se mais com a dimensão desinformativa.

O que – assinala - não quer dizer que os partidos não deem visibilidade à desinformação, mas fazem-no de maneira “mais conscienciosa”: “estão a proteger-se melhor nesse campo e, portanto, tendem a não fazer uso disso, pelo menos de forma tão direta”.

Para Gustavo Cardoso, o grande desafio para as democracias neste campo é que a desinformação não é feita na estrutura hierárquica dos partidos.

“Os partidos nunca tiveram controlo sobre os seus militantes e esperam que estes se comportem segundo aquilo que são as regras que eles acordam e que praticam, mas depois ninguém pode ter controlo sobre dezenas de milhares de pessoas nas suas práticas”, afirma.

A prevenção da polarização é também sublinhada pelo investigador do MediaLab José Moreno, segundo o qual é este fenómeno nas redes sociais que depois desencadeia uma série de “comportamentos comunicativos” por parte dos militantes, que “amplificam umas coisas, ou mentem descaradamente sobre outras, ou manipulam imagens”.

“Os partidos sempre tiveram militantes e os militantes sempre foram ativos na defesa dos ideários dos seus partidos”, diz José Moreno, “a diferença agora é que todos os militantes têm acesso às redes para partilharem, comentarem, fazerem ‘like’ ou produzirem conteúdos” e, portanto, “se houver políticos que permanentemente estão a polarizar a situação e a acicatar os seus para atacar os outros, do outro lado”, o que acontece é que haverá “uma polarização completa em que ninguém fala com ninguém, em que toda a gente se digladia com toda a gente, e toda a gente recorre a tudo o que pode para combater o outro”.

Segundo o investigador, daqui resulta uma “maior responsabilização dos atores políticos”, que devem perceber que tipo de discurso devem ter para não polarizar ainda mais a sociedade.

“Eu não sei se todos eles têm noção disto, se querem seguir este caminho, ou se lhes serve enquanto estratégia, mas é isto que resulta do ambiente geral em que em que vivemos atualmente em termos de redes sociais, e a polarização que alimenta este tipo de fenómenos”, conclui.

 

Luísa Meireles e Nuno Simas