Paul Mihailidis: Literacia mediática só funciona em proximidade às pessoas
Coimbra, 27 nov 2025 (Lusa) – O professor norte-americano de jornalismo e media cívica Paul Mihailidis defendeu hoje que a literacia mediática só funciona se for aplicada em contextos de proximidade às pessoas, um conceito que tem vindo a desenvolver.
Intervindo no VII Congresso Literacia, Media e Cidadania – Comportamentos, Narrativas e Direitos Humanos, que começou hoje, em Coimbra, Paul Mihailidis, também reitor interino da Escola de Comunicação do Emerson College, em Boston, Estados Unidos, exemplificou com um projeto, ligado a um jornal local, que tem em curso na comunidade onde reside.
“Tem sido uma experiência maravilhosa. Mas, quando as pessoas perdem o acesso à informação acerca das suas comunidades locais, perdem a habilidade de se conectarem com elas. Se os jovens, ou pessoas das nossas cidades, pensarem na forma como a educação funciona, ou os transportes públicos funcionam, é cada vez mais difícil encontrar informação sobre esses temas”, alegou.
Deste modo, “quando pensamos em práticas de literacia mediática, temos mesmo de pensar nesses espaços vazios, nesses intervalos, que são reais na vida das pessoas, e como é que os media podem ser desenhados para solucionar isso”, disse o docente.
“E essa prática é muito mais forte do que refletir como é que os media falam desses problemas. Começando por desenhar alguma coisa conectada com as pessoas e, depois, sim, falar dos problemas, é realmente um exemplo de como esta possível abordagem da literacia mediática pode funcionar”, vincou Paul Mihailidis.
O especialista norte-americano, que também dá aulas de ativismo comunitário e media digitais e cultura, admitiu, no entanto, que na perspetiva educativa da literacia mediática “é muito bom pensar as coisas de forma abrangente”.
“Mas temos a noção de que o impacto mais direto que as intervenções de literacia mediática têm, é quando se conseguem aplicar às coisas que as pessoas sentem e percebem, na comunidade envolvente e nas organizações que lhes são próximas (…) Trabalhamos muito neste conceito de proximidade”, enfatizou.
Segundo Paul Mihailidis, o perigo, pelo menos nos Estados Unidos, reside nas plataformas de media digitais e dos algoritmos que regem as redes sociais, “que têm secado os media locais”.
“Têm diminuído a habilidade dos media em se conectarem com as pessoas localmente. Nos Estados Unidos as grandes empresas de media, que todos vocês conhecem, são os grandes responsáveis pela morte dos media locais, usam os algoritmos para inserirem as suas notícias no espaço comunitário local, e, em resultado disso, os media locais ou são engolidos ou morrem”, explanou.
“O resultado é que há uma falta imensa de media locais e não há nada para os substituir”, lamentou o norte-americano.
Na sessão de abertura do congresso, realizada ao início da tarde de hoje, Albano Figueiredo, diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), promotora do evento em colaboração com o Grupo Informal de Literacia Mediática (GILM) – onde estão representadas 12 entidades, entre as quais a agência Lusa – classificou o mundo atual como estranho.
“Nunca o ser humano beneficiou de tanta tecnologia e conhecimento acumulado e nunca, como agora, somos confrontados com tantos problemas, em vários domínios. A literacia mediática é fundamental, nunca a desinformação chegou a um nível tal como nos dias de hoje”, argumentou o diretor da FLUC.
Para Albano Figueiredo, uma reflexão crítica sobre este tema “faz todo o sentido e este congresso vai ao encontro desse objetivo”.
O responsável defendeu ainda que o congresso, que termina na sexta-feira, possa resultar num diagnóstico e propostas de intervenção.
José Luís Sousa