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Radicalização contra Lula da Silva fez surgir personagem que escapa ao controlo da direita

Lisboa, 08 nov (Lusa) -- A radicalização dos conservadores brasileiros contra o ex-Presidente Lula da Silva fez emergir uma figura aglutinadora daquele setor que, todavia, escapa ao controlo da direita, afirmou à Lusa um membro da plataforma de comunicação digital brasileira Mídia Ninja.


"Há um processo de radicalização contra o Partido dos Trabalhadores (PT) e contra a figura de Lula da Silva e, obviamente, quando você radicaliza contra alguém ou algo, cria-se um polo oposto ao lado que está a ser atacado", considerou Pablo Capilé, membro da Mídia Ninja.


De acordo com Capilé, "o campo conservador com esta radicalização subestimou a possibilidade de um crescimento espontâneo deste polo oposto, com Jair Bolsonaro (da extrema-direita), que não foi a figura trabalhada para representar esta polarização".


"Bolsonaro tornou-se no algoz do próprio campo conservador, que não conseguiu perceber a possibilidade do surgimento de um arquétipo mais espontâneo, que ficou fora do controlo dos 'golpistas' (políticos que apoiaram a destituição da Presidente Dilma Rousseff em 2016)", acrescentou Pablo Capilé.


Nas recentes sondagens para as Presidenciais de 2018, Lula da Silva (PT) tem cerca de 35% e Jair Bolsonaro (Partido Social Cristão/PSC) 17%, seguindo-se, em terceiro lugar, Marina Silva (Rede) com 14% das intenções de voto.


Para a Mídia Ninja, a polarização das forças políticas entre esquerda e direita é um fenómeno que está a atingir o mundo todo e, na América do Sul, começou quando chegaram ao poder vários governos de esquerda, entre 1998 e 2016. No Brasil, esta polarização começou já há algum tempo, nomeadamente durante o primeiro mandato do ex-Presidente Lula da Silva (2003-2010).


"Os 'golpistas' deram o golpe (em Dilma Rousseff) pensando que iriam desenvolver um projeto de poder de 10, 15 anos, mas não esperavam, em primeiro lugar, o grande crescimento de Lula da Silva mesmo com todas as dificuldades que atravessa e, depois, não esperavam perder o controlo da força da oposição que se deslocou para uma figura que é o que é, o Bolsonaro", afirmou Pablo Capilé.


Lula da Silva foi condenado judicialmente num processo (do qual interpôs recurso) no âmbito da operação Lava Jato, que investiga a corrupção na Petrobras e outras entidades, e também está a responder a outros processos na justiça.


Os integrantes do Mídia Ninja, que participam quinta-feira na Bea.to Unconference, no Hub Criativo do Beato, em Lisboa, acreditam que a corrupção deve ser investigada a fundo, mas sem ser parcial, que não seja investigado apenas um grupo ou partido.


Sobre as eleições presidenciais de 2018 no Brasil, Pablo Capilé disse que estas serão muito parecidas com as de 1989.


"É um cenário muito aberto, em que muitos partidos vão lançar candidatos, tanto da esquerda como da direita, e vão trabalhar coligações para o segundo turno. As pesquisas no Brasil mostram que nunca antes o país esteve tão próximo da esquerda e que há um crescimento da predisposição de estar próximo do campo dos progressistas. No meu ponto de vista otimista, haverá uma coligação progressista que levará um candidato do espectro da esquerda à Presidência do Brasil", afirmou ainda.


A Mídia Ninja, que surgiu a partir de uma rede cultural alternativa de jovens baseada na Internet chamada Fora do Eixo, ganhou destaque nas grandes manifestações de 2013 no Brasil, transmitindo em direto por vários canais da Internet, a partir de telemóveis e outros meios digitais, os protestos de rua.


A Mídia Ninja - que se afirma de esquerda, mas não ligada a partidos - é composta por uma rede de colaboradores em todo o Brasil que produzem conteúdos jornalísticos, fotografia, vídeos, design, entre outros, e tem mais de dois milhões de seguidores nas redes sociais Facebook e Twitter e também no Youtube e na sua página na Internet, entre outros meios.



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