A apresentar resultados para:
Ordem
Mais Recentes
Mais Recentes Mais Antigas
Data
Tudo
Na Última Hora Últimas 24 Horas Últimos 7 Dias Último Mês Último Ano Tudo Datas específicas

Estudo: Chega segue manual internacional do populismo digital e da desinformação

Uma apoiante do Chega acena uma bandeira durante um jantar com militantes no âmbito da campanha eleitoral para as eleições legislativas, em Guimarães, 08 de maio de 2025. ESTELA SILVA/LUSA

Lisboa, 21 fev 2026 (Lusa) – A estratégia política do Chega segue um padrão de comunicação alinhado com o manual internacional do populismo digital, combinando redes sociais, narrativas emocionais e conteúdos enganosos e distorcidos para mobilizar eleitores, afirmou a investigadora Ana Joaquim.

No estudo "Misinformation and social media in CHEGA’s Campaigns (2019–Present): The Future of Democracy at Stake", sobre desinformação e campanhas digitais, a autora analisou a evolução da comunicação do partido e identificou semelhanças com estratégias utilizadas por líderes e movimentos como Donald Trump nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro no Brasil e a Alternativa para a Alemanha (AfD).

“O caso português mostra que o Chega adaptou ao contexto nacional um conjunto de técnicas já testadas internacionalmente, assentes em comunicação direta nas redes sociais, forte personalização da liderança e narrativas que exploram perceções de crise e injustiça”, explicou à Lusa a investigadora da Universidade Nova de Lisboa.

De acordo com o estudo, estas estratégias incluem a difusão de mensagens sobre imigração, criminalidade ou corrupção que misturam preocupações legítimas com exageros, descontextualizações ou afirmações posteriormente contestadas por verificadores de factos.

Outro elemento central é a deslegitimação dos media tradicionais, frequentemente retratados como parciais ou hostis, um enquadramento que, para a académica, contribui para fragilizar o papel do jornalismo como mediador e para criar públicos menos permeáveis à correção factual.

O estudo destacou ainda a forte personalização da comunicação em torno de André Ventura, num modelo semelhante ao observado nos casos norte-americano e brasileiro, em que a mobilização política se estrutura em torno da figura do líder e do seu estilo combativo e direto.

A utilização intensiva das redes sociais permitiu ao partido contornar os canais tradicionais de mediação, testar mensagens em tempo real e amplificar conteúdos emocionalmente mobilizadores, que tendem a obter maior visibilidade nas plataformas digitais.

Plataformas fazem aproximação aos jovens

A utilização destas plataformas aproxima o partido dos eleitores mais jovens, fortemente expostos à comunicação política ‘online’, levando a que este grupo etário tenha tido um peso relevante no crescimento do partido.

Para Ana Joaquim, a trajetória do partido demonstra que “mesmo democracias consideradas estáveis podem ser rapidamente impactadas quando estratégias de mobilização emocional e ecossistemas digitais favoráveis combinam”.

Ainda assim, a investigadora sublinhou diferenças face a outros contextos internacionais.

Em Portugal, o impacto destas estratégias tem-se traduzido sobretudo em polarização e degradação do debate público, sem episódios de rutura institucional como os registados nos Estados Unidos ou no Brasil.

O estudo concluiu que o caso português confirmou a existência de um modelo transnacional de comunicação populista em ambiente digital e defende respostas que incluam maior transparência nas campanhas ‘online’, reforço dos mecanismos de verificação de factos e investimento em literacia mediática como forma de reforçar a resiliência democrática.

Paulo Resendes