Estudo: Chega segue manual internacional do populismo digital e da desinformação
Lisboa, 21 fev 2026 (Lusa) – A estratégia política do Chega segue um padrão de comunicação alinhado com o manual internacional do populismo digital, combinando redes sociais, narrativas emocionais e conteúdos enganosos e distorcidos para mobilizar eleitores, afirmou a investigadora Ana Joaquim.
No estudo "Misinformation and social media in CHEGA’s Campaigns (2019–Present): The Future of Democracy at Stake", sobre desinformação e campanhas digitais, a autora analisou a evolução da comunicação do partido e identificou semelhanças com estratégias utilizadas por líderes e movimentos como Donald Trump nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro no Brasil e a Alternativa para a Alemanha (AfD).
“O caso português mostra que o Chega adaptou ao contexto nacional um conjunto de técnicas já testadas internacionalmente, assentes em comunicação direta nas redes sociais, forte personalização da liderança e narrativas que exploram perceções de crise e injustiça”, explicou à Lusa a investigadora da Universidade Nova de Lisboa.
De acordo com o estudo, estas estratégias incluem a difusão de mensagens sobre imigração, criminalidade ou corrupção que misturam preocupações legítimas com exageros, descontextualizações ou afirmações posteriormente contestadas por verificadores de factos.
Outro elemento central é a deslegitimação dos media tradicionais, frequentemente retratados como parciais ou hostis, um enquadramento que, para a académica, contribui para fragilizar o papel do jornalismo como mediador e para criar públicos menos permeáveis à correção factual.
O estudo destacou ainda a forte personalização da comunicação em torno de André Ventura, num modelo semelhante ao observado nos casos norte-americano e brasileiro, em que a mobilização política se estrutura em torno da figura do líder e do seu estilo combativo e direto.
A utilização intensiva das redes sociais permitiu ao partido contornar os canais tradicionais de mediação, testar mensagens em tempo real e amplificar conteúdos emocionalmente mobilizadores, que tendem a obter maior visibilidade nas plataformas digitais.
Plataformas fazem aproximação aos jovens
A utilização destas plataformas aproxima o partido dos eleitores mais jovens, fortemente expostos à comunicação política ‘online’, levando a que este grupo etário tenha tido um peso relevante no crescimento do partido.
Para Ana Joaquim, a trajetória do partido demonstra que “mesmo democracias consideradas estáveis podem ser rapidamente impactadas quando estratégias de mobilização emocional e ecossistemas digitais favoráveis combinam”.
Ainda assim, a investigadora sublinhou diferenças face a outros contextos internacionais.
Em Portugal, o impacto destas estratégias tem-se traduzido sobretudo em polarização e degradação do debate público, sem episódios de rutura institucional como os registados nos Estados Unidos ou no Brasil.
O estudo concluiu que o caso português confirmou a existência de um modelo transnacional de comunicação populista em ambiente digital e defende respostas que incluam maior transparência nas campanhas ‘online’, reforço dos mecanismos de verificação de factos e investimento em literacia mediática como forma de reforçar a resiliência democrática.
Paulo Resendes