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São falsas as páginas SpotifyPay e Youtube Recompensas que prometem ganhos rápidos de centenas de euros

Lisboa, 21 mai 2026 (Lusa Verifica) – São falsas e fraudulentas as páginas anunciadas em centenas de anúncios no Facebook com promessas de ganhos entre 374 e 711 euros por simples respostas a alegados questionários sobre anunciantes no YouTube ou artistas no Spotify.

Alegação: “ela já ganhou mais de €500 só a avaliar artistas no Spotify”

A 15 de maio, a Lusa Verifica foi alertada para um anúncio de uma página que alegadamente pagava “até 500 euros pela avaliação de artistas no Spotify”.
Numa captura de ecrã obtida num anúncio que surgiu num jogo de smartphone, era possível identificar o endereço pt.soundganha.com (https://archive.ph/qKVvZ e https://archive.ph/ASOyz) e um grafismo alusivo ao “SpotifyPay”, uma página que permitiria “ganhar dinheiro a avaliar os artistas do momento”.
Através de pesquisas pela legenda visível nas imagens do anúncio, nomeadamente pela frase “ela já ganhou mais de €500 só a avaliar artistas no Spotify”, foram identificados vários vídeos semelhantes através do Google, nos quais jovens raparigas asseguravam que a promessa é real.
“Juro, acabei mesmo agora de fazer isso e tipo, eles pagam mesmo. Eu nem queria acreditar quando vi. É só responder a umas cenas rápidas. Achei mesmo que era ‘scam’, mas afinal não, já caiu. Têm de testar isto, a sério”, afirmava uma das jovens (https://archive.ph/DUxLg).

Factos: são páginas fraudulentas criadas para promover ganhos fictícios e obter pagamentos de taxas

Como é recomendado nestes casos, importa desconfiar de promessas boas de mais para serem verdade e analisar os links disponíveis, que neste caso não confirmaram qualquer relação oficial com a Spotify, bem como os vídeos detectados na pesquisa inicial, que correspondiam ao perfil que publicou o anúncio enviado ao Lusa Verifica.
A análise desse perfil, em nome de Sofia Almeida, confirmou as suspeitas de se tratar de uma fraude: tinha apenas 11 seguidores e uma publicação com a foto de uma jovem claramente gerada por inteligência artificial (IA), sem qualquer relação ou referência à Spotify: https://archive.ph/hpsIn.
A consulta da aba de transparência do perfil permitiu também perceber que foi criado a 4 de maio e que estava a promover anúncios no Facebook, sendo possível aceder à Biblioteca de Anúncios da Meta para esse perfil.
Aí, foram detectados 7 anúncios semelhantes ativos (https://ghostarchive.org/archive/kOtkF?wr=false) de um total de 140 já pagos até à data por aquele perfil (https://ghostarchive.org/archive/4qlIw?wr=false), todos a promoverem o tal SpotifyPay e todos com imagens claramente geradas por IA.
Desde então, o mesmo perfil já viu alguns anúncios removidos por violação dos termos da plataforma, mas continuou a conseguir publicar dezenas de anúncios novos com o mesmo tipo de conteúdos: https://ghostarchive.org/archive/RbbML?wr=false.
A análise desses anúncios e pesquisas posteriores levaram à deteção de mais três perfis semelhantes, dois com mesma foto da jovem gerada por IA (https://archive.ph/t17be, https://archive.ph/2kD5a e https://archive.ph/GpzvV) e todos eles a promoverem o mesmo tipo de anúncios, em alguns casos 480 vezes: https://ghostarchive.org/archive/W6NYO?wr=false.
Seguiu-se a análise da página promovida, bem como outra semelhante detetada no perfil mais antigo, em nome de Julia Silva, que em vez de pt.soundganha.com remetia para outro endereço suspeito: https://archive.ph/H3qkW e https://archive.ph/ZtWsn.
Enquanto a primeira solicitava dez avaliações “de 1 a 5” sobre músicos como Taylor Swift, Beyoncé, Ed Sheeran e Billie Eilish, por exemplo, a segunda visava apenas músicos brasileiros como Matuê, Ana Castela ou Gusttavo Lima, mas em testes posteriores passou a apresentar artistas nacionais e lusófonos como Bispo, Napa e Calema.
A Lusa Verifica testou as duas páginas várias vezes e respondeu a todas as questões, que incluíam indicar se o utilizador recomendaria aqueles artistas aos amigos e família e que faixa etária achava que mais os ouviam.
A cada resposta surgia o valor a receber, que oscilava entre 49,40 e 95,35 euros consoante os artistas, num montante final de 711,65 euros, comum nas duas páginas.
No entanto, esse “saldo disponível” só poderia ser levantado após o pagamento de uma “taxa de verificação (reembolsável)” de 12,95 euros no primeiro caso, ou de uma “taxa antifraude” de 21,70 euros, no outro, pormenores típicos das fraudes que promovem este tipo de ganhos fáceis.
A Lusa Verifica também simulou pedidos de reembolso nas duas páginas e obteve pedidos de pagamentos via MB WAY em nome de “MascotPay”, no valor de 12,95 euros, e de “Perky Task Unip LDA”, para o pagamento de 21,70 euros, valores que obviamente não pagou aos burlões.
Entretanto, na biblioteca de anúncios de um dos perfis falsos já referidos, foi detetada a promoção de outra página com um sistema semelhante (https://ghostarchive.org/archive/O3qj8?wr=false), mas em nome de “YouTube Recompensas”: https://archive.ph/TO6IT.
Nesse caso, após apenas três respostas sobre alegados anunciantes era possível ganhar 374 euros (https://archive.ph/CmO8m), mas novamente apenas depois de liquidada uma taxa que neste caso era de 14,99 euros (https://archive.ph/k21ls), também em nome de “Perky Task Unip LDA” no caso de pagamento via MB WAY.
Nas três situações foram também simuladas opções de pagamento por Multibanco, tendo as páginas gerado referências com a entidade 55003, código que os sistemas de ‘homebanking’ identificam como pertencente à marca EducaPt.
Com estes dados foi possível identificar que os movimentos MB WAY e as referências multibanco têm o mesmo destino e correspondem a empresas e marcas reais, nomeadamente à “Perky Task - Unipessoal Lda”.
Segundo a página das Publicações de Atos Societários do Ministério da Justiça (https://publicacoes.mj.pt/Pesquisa.aspx), esta empresa com o número de contribuinte 519231180 foi registada em Braga, a 28 de janeiro, e tem como gerente o cidadão brasileiro Jhonn Wayne Santos Souza, com residência em Andorra.
Pesquisas adicionais revelaram que além da página institucional (https://web.archive.org/web/20260515224211/https://perkytask.com/), a empresa está relacionada com as marcas referidas nos meios de pagamento, como EducaPt (https://web.archive.org/web/20260516145258/https://educapt.com/) e MascotPay (https://web.archive.org/web/20260515141052/https://mascotpay.com/), entre outras, todas com grafismos semelhantes e a promoção de alegadas “soluções globais de reembolsos”.
Já no dia 16 foi também identificada uma denúncia na plataforma Reddit, entretanto eliminada, que associa o nome da empresa Perky Task a outra alegada burla relacionada com a angariação de fundos para uma criança doente, caso que já terá sido alvo de queixa às autoridades: https://archive.ph/Ji05K.

Contraditório

O Lusa Verifica questionou a Perky Task e o seu gestor através de quatro emails e um número de WhatsApp, bem como a Meta e o YouTube, mas ainda não obteve respostas.
No entanto, no dia 18, a página da Perky Task foi alterada e passou a incluir um comunicado onde a agora “agência de marketing digital” informa que “foi alvo de um ataque de burla/fraude digital” e que está “a trabalhar ativamente para resolver a situação, e dispostos a colaborar com as autoridades competentes”: https://archive.ph/1FUmx.
Posteriormente, a 20 de maio, a SIC divulgou uma investigação sobre a burla das angariações de fundos, no âmbito da qual tentou localizar a Perky Task, em Braga, tendo descoberto que não existia na morada indicada, e obteve declarações do gerente, Jhonn Wayne Souza, que alegou também ser vítima da burla.
“Eu praticamente fui enganado. Eu fiz uma parceria com o ‘gateway’ de pagamentos, no qual a minha empresa é somente uma intermediação. E aí, acho, não sei, não posso ter certeza, estamos investigando ainda, acaba que uma das pessoas fez essas páginas falsas”, disse em declarações à SIC: https://archive.ph/PKlZx (>11:20).
Por seu lado, a Spotify, visada no esquema investigado pela Lusa Verifica, esclarece que as páginas fraudulentas identificadas “não têm qualquer relação” com a empresa, nem a Spotify gere qualquer iniciativa deste tipo, e que uma delas já foi eliminada.
“Trata-se, aparentemente, de uma tentativa de ‘phishing’ e de uma utilização não autorizada da nossa marca. Não tínhamos conhecimento deste caso específico, mas levamos muito a sério a utilização indevida da nossa marca e iremos investigar o assunto”, assegurou Agostino Melillo, diretor de comunicação da Spotify para a Europa do Sul e Oriental.
Na página da empresa, a Spotify também alerta que “não oferece pagamentos ou recompensas financeiras aos usuários por ouvirem ou interagirem com conteúdos na plataforma”, pelo que eventuais ofertas nesse sentido “podem tratar-se de uma fraude ou golpe”: https://archive.ph/ZcTDE.
Também contactado pela Lusa, o Banco de Portugal (BdP) esclareceu que “a entidade MascotPay não se encontra registada, não estando, por isso, autorizada a exercer atividade enquanto instituição de pagamento em Portugal” e a consulta feita pela Lusa à listagem de instituições autorizadas também não revela registos para a Perky Task ou para qualquer das outras marcas associadas.
Além disso, o gabinete de comunicação do BdP alerta que “no âmbito de um pagamento de serviços/compras, a entidade beneficiária identificada poderá não corresponder ao destinatário final dos fundos”, porque “a empresa a que corresponde a ‘entidade’ pode ser um prestador de serviços com o qual o último destinatário dos fundos contrata a receção de pagamentos através do ‘pagamento de serviços/compras”.
Nessas situações, explica o BdP, “o prestador de serviços de pagamento recebe inicialmente os fundos, procedendo posteriormente à sua transferência para o destinatário final.”
Estas fraudes relacionadas com alegadas avaliações de cantores ou recompensas no Youtube são semelhantes a outras que circulam no Brasil desde 2024, como revelam estas verificações de factos do UOL, Estadão, Lupa e Boatos.org: https://archive.ph/wOcOs, https://archive.ph/62nxD, https://archive.ph/Dscmg, https://archive.ph/Z4f34 e https://archive.ph/dbEk6.

Avaliação Lusa Verifica: Falso

São falsas as páginas SpotifyPay e YouTube Recompensas que tentam passar-se por marcas legítimas e estão a ser promovidas através de centenas de anúncios no Facebook e noutras plataformas.
Tratam-se de esquemas fraudulentos que tentam levar as vítimas a preencher questionários simples para conquistarem recompensas monetárias fictícias de centenas de euros que só seriam desbloqueadas após o pagamento de taxas entre 12,95 e 21,70 euros aos burlões.

Luís Galrão