Vídeos falsos gerados por IA promovem propostas fraudulentas de trabalho a montar canetas e pulseiras em casa
Lisboa, 26 mai 2026 (Lusa Verifica) – Os vídeos e anúncios que promovem trabalhos remunerados de montagem de canetas, pulseiras e outros produtos em casa são falsos e foram gerados por inteligência artificial (IA), no âmbito de uma burla que usurpa a marca Amazon Handmade.
Alegação: montar pulseiras ou canetas em casa rende entre 100 e 400 euros por dia, ou até 600 euros por mil produtos montados
No final de abril, a Lusa Verifica foi alertada para um conjunto de anúncios que estavam a ser partilhados no Facebook, sobre alegados trabalhos de montagem de pulseiras, canetas e outros materiais em casa, com promessas de rendimentos entre 100 e 400 euros por dia a montar pulseiras (https://archive.ph/s1pCW) ou de até 600 euros por mil artigos montados.
“Aproveite o seu tempo livre para embalar e montar produtos em casa. Montar um artigo, igual a 0,60 euros. Montar 1.000 artigos, igual a 600 euros. Entregamos todos os materiais diretamente à sua porta. Entre em contacto comigo para começar”, ouvia-se num dos anúncios: https://archive.ph/t9Gmq.
Noutro vídeo, outra voz garantia tratar-se de “uma fábrica real” que “faz envios diretos, sem intermidários” [sic], mas a narração demonstrava potencial para origem artificial: “Atualmente estamos à procura de pessoas para trabalho em part-time que possa ser feito em casa. O trabalho é muito simples, consiste apenas em [imperceptível] ou caneta sem horários fixos. Todos os materiales são enviados de confiável de ganhar uma redenda extra [sic]”, ouve-se noutro vídeo: https://archive.ph/OnGYu.
Além dos vídeos, circulavam também publicações estáticas a promover a montagem de canetas em casa, neste caso com remunerações de 30 cêntimos por cada 1.000 canetas, ou seja 300 euros por lote: https://archive.ph/Do9E2 e https://archive.ph/lFUtf (exemplos).
Factos: trata-se de uma burla que difunde anúncios falsos gerados por IA e usurpa a marca Amazon Handmade
A simples análise dos anúncios revelava imediatamente que eram falsos e foram gerados por inteligência artificial (IA), dado que não só as imagens apresentam várias inconsistências, sobretudo no vídeo da montagem de canetas, como as narrações têm várias palavras impercetíveis e erros de português.
Além disso, a página que promovia todos estes anúncios apresentava vários sinais de alerta, como ter o nome “Karen Parrish King”, uma morada nos Estados Unidos, não ter qualquer publicação e ter apenas 300 seguidores: https://archive.ph/sFuox.
No entanto, nenhum dos anúncios recebidos tinha contactos ou links ativos. Para investigar esse aspeto foi consultada a aba de transparência do Facebook, que mostrava que a página foi criada a 26 de junho de 2025, sendo gerida maioritariamente entre os EUA e a Alemanha.
Revelava, também, que já tinham sido publicados cerca de 160 anúncios semelhantes, desde meados de abril: https://ghostarchive.org/archive/g3Ghn?wr=false (clicar em “Archived page not displaying properly? Click here” caso não surja o conteúdo do link de arquivo), tendo esse número mais do que duplicado na primeira quinzena de maio: https://ghostarchive.org/archive/EUyo4?wr=false.
A análise dos links de redirecionamento em alguns dos anúncios ativos permitiu perceber que remetiam para pelo menos três números de WhattsApp, pelo que a Lusa Verifica decidiu testar o esquema através de um deles, identificado pelo nome “Nina”, após registo nessa plataforma: https://archive.ph/DB5TG.
Nesse contacto, foi simulado interesse em participar na montagem de canetas em casa, tendo a “Nina” informado que “a empresa tem uma variedade de trabalhos manuais, como recargas de caneta, colares de contas, grampos de cabelo, cordas de cabelo e caixas dobráveis” que poderiam permitir um “salário diário de 100 a 500 euros”, sendo a “entrega gratuita e os custos de logística suportados pelo fabricante”.
Após algumas questões simples sobre sexo e idade, esse número partilhou uma infografia com os tipos de produtos e uma lista de preços que prometia pagamentos de 0,30 euros por caneta, 0,50 por fio de contas ou elásticos de cabelo, 0,80 por “caixinha de papel” e 1 euro por ganchos de cabelo, com quantidades de primeira entrega entre as 800 e as 2000 peças consoante o produto escolhido.
A Lusa Verifica escolheu as canetas e teve a candidatura aprovada sem mais questões, mas aproveitou para fazer várias perguntas práticas, como se era necessário passar recibos verdes e qual era o nome e a morada da empresa. Na resposta foi recomendado que os rendimentos fossem devidamente declarados e indicado que a empresa era a “Amazon Serviços de Vendas, S.L”, com morada na “Av. Dom João II, 1990-096 Lisboa”.
Posteriormente foi indicado um contacto do departamento logístico noutra plataforma, o Telegram, em nome de Leonor Constança Maria (https://archive.ph/EkWGV), que também foi contactada para dar seguimento à candidatura.
Essa responsável apresentou-se como sendo “da recepção do Amazon Handmade”, repetiu algumas perguntas e apresentou as condições para a tarefa escolhida: a montagem de cargas de canetas esferográficas seria paga a “0,3 € por peça”, sendo que “em média, é possível produzir 50–60 peças por hora, com ganhos entre 15–18 euros/hora”, o que resultaria num pagamento de 600 euros para um primeiro lote de 2.000 peças.
No entanto, era necessário “experimentar primeiro” através da criação de uma conta na suposta página da Amazon Handmade, escrita em inglês e com um logótipo semelhante ao daquele departamento da multinacional: https://archive.ph/rBelG e https://archive.ph/JK2No, mas alojada num fornecedor chinês do grupo Alibaba, com servidores nos EUA: https://archive.ph/YHRRW (entretanto removida).
Esse passo também foi cumprido, apesar de o computador utilizado alertar para a presença de um potencial vírus “cavalo de Troia”, ocorrência comunicada à conta WhatsApp, mas desvalorizada com garantias de que a página era segura, e também despistada através de várias análises e medidas de segurança.
Após o registo, a “Leonor” adicionou o número de telemóvel indicado a um “grupo de artesanato” que teria como missão “verificar os endereços de entrega” no dia seguinte, um domingo, entre as 8h30 e as 9h30. Esse grupo tinha à data 1.288 membros (https://archive.ph/tnB9Q), aumentando na manhã seguinte para 1.346 inscritos https://archive.ph/xSaBE).
Por se tratar de um novo membro, o utilizador criado não conseguia enviar mensagens dentro desse grupo de iniciantes, pelo que todas as interações continuaram a ser feitas na conversa com a “Leonor”. O objetivo era ganhar “acesso ao Grupo VIP, um privilégio exclusivo reservado aos membros que passaram com êxito pela fase de treinamento e concluíram integralmente o projeto que lhes foi atribuído.”
No dia seguinte, a Lusa Verifica viu validada a morada (o endereço da Lusa), recebeu um código de rastreamento para a página de uma suposta transportadora (https://archive.ph/i40Fp) e instruções para um conjunto de atividades pelas quais eram dadas recompensas entre 1 e 2 euros.
Até à hora de almoço, com o grupo a registar cerca de 150 utilizadores ligados, todos aparentemente a cumprir as mesmas tarefas, o saldo somava seis euros, dos quais 2€ de bónus de validação de morada e outros 4€ por quatro “gostos” em produtos na alegada página da Amazon Handmade, que foram solicitados a cada 45 minutos.
Para receber essa comissão era necessário indicar um número MB WAY ou o IBAN de uma conta, tendo sido escolhida a primeira opção. Em segundos, os seis euros foram de facto transferidos para o número indicado, tendo a app MB WAY apenas registado o número do remetente, sem identificar o nome.
Depois da pausa para almoço havia outras tarefas semelhantes, cada uma a valer dois euros, que também foram cumpridas. No entanto, ao contrário do período da manhã, era necessário um passo final para receber esse montante: “ajudar um comerciante no processo de compra” através da aquisição de uma de três opções com valores de 35, 70 e 100 euros.
Quem cumprisse esta oitava tarefa receberia “comissões” de 14, 28 ou 50 euros, às quais seriam acrescidos os valores pagos pela tarefa e o alegado “lucro” do comerciante, bem como as comissões das tarefas da tarde.
Houve dezenas de contas que partilharam supostos comprovativos desses movimentos, quer de compra, quer de recebimentos, no tal grupo de iniciantes.
A Lusa Verifica escolheu testar a opção 1, de 35 euros, com a promessa de receber de volta 76 euros. Mas ao contrário das instruções no grupo, não foi solicitado qualquer processo de compra através da página, mas sim o envio de uma “transferência imediata” para um IBAN indicado, identificável, alegadamente “um dos vendedores” da Amazon Handmade, nome que a Lusa Verifica optou por não relevar.
Nesse momento foi simulado um problema técnico e adiado o pagamento para algumas horas depois. Quando a conversa foi retomada aquele IBAN já tinha sido apagado com a desculpa falsa de que “cada IBAN tem um prazo de validade”, razão pela qual foi indicado outro IBAN, identificável com um nome completo de outra alegada vendedora, que a Lusa Verifica optou por não revelar.
Esse pagamento não foi concretizado e isso gerou uma clara irritação na “Leonor”, momento aproveitado para explicar a essa e à outra conta no WhatsApp que aquelas interações estavam a ser realizadas no âmbito de uma investigação da Lusa Verifica. A partir dali não foi possível obter mais reações, apesar de terem sido enviadas várias questões.
Posteriormente, foi analisado o registo bancário do pagamento dos seis euros via MB WAY, o que permitiu identificar o nome Alice Henriques como remetente. Foi também contactado o número envolvido, via WhatsApp, tendo a pessoa que respondeu negado ter efetuado qualquer transferência ou ter o nome que surge no registo bancário.
Na sequência dessa resposta, a Lusa Verifica questionou a SIBS, empresa gestora do MB WAY, que garantiu que é impossível simular uma transferência a partir de outro número, mas explicou que os dados da transferência são detidos pelas instituições bancárias envolvidas e gozam de sigilo bancário.
No entanto, investigações adicionais através de fontes abertas permitiram encontrar uma lista telefónica onde o número que surge registado na transferência MB WAY está de facto relacionado com o nome identificado no movimento bancário. A Lusa Verifica confrontou o mesmo número com esta evidência, mas já não obteve respostas.
Entretanto, a informação de rastreamento do suposto envio das canetas para a sede da Lusa foi sendo atualizada já depois de todas estas conversas, incluindo com atualizações de processamento nos dias seguintes a ter sido revelado tratar-se de uma investigação jornalística, tendo a plataforma simulado que o envio foi cancelado ao final de seis dias, quando já deveria ter sido entregue: https://archive.ph/Rs0vi.
Em fevereiro, a SIC Verifica já tinha aflorado um esquema fraudulento semelhante, à data promovido através de vídeos no TikTok: https://archive.ph/WqBxx.
Apesar daqueles exemplos já não estarem disponíveis, as mesmas contas e outras têm ainda dezenas de vídeos semelhantes, alguns com muitos milhares de visualizações e centenas de interessados: https://archive.ph/HkhLC, https://archive.ph/1rz29 e https://archive.ph/zZTdF (exemplos).
Ainda não está claro se se trata da mesma rede, mas foi possível identificar esquemas semelhantes nos EUA (https://archive.ph/QfnYB), Japão (https://archive.ph/sIiAV), Reino Unido e Alemanha, bem como mais de uma dezena de páginas idênticas a usurpar a imagem da Amazon Handmade: https://archive.ph/b1l6g, https://archive.ph/gGJXd, https://archive.ph/Lxnp2, https://archive.ph/D4u4s ou https://archive.ph/r3GNH (exemplos, alguns ainda ativos).
Nas caixas de comentários deste tipo de vídeos no TikTok, também é possível encontrar queixas e testemunhos de quem foi burlado ao efetuar uma das compras da oitava tarefa e não recebeu as prometidas recompensas com lucros, bónus e comissões.
Contraditório
Além de enviar questões para todos os números de WhatsApp, Telegram e emails identificados no esquema, todas sem resposta, a Lusa Verifica também questionou a Amazon, reconhecida marca internacional que tem de facto um departamento “Amazon Handmade”, embora com um logótipo ligeiramente diferente: https://archive.ph/FFrMG.
Em resposta, a empresa assegurou que “estes sites não têm qualquer ligação com a Amazon” e que a empresa “está a investigar este assunto e a trabalhar para que esses sites fraudulentos sejam removidos”, apelando também aos consumidores para comunicarem quaisquer suspeitas de burlas.
Segundo a Amazon, “os esquemas fraudulentos que tentam fazer-se passar pela empresa colocam os consumidores em risco”, razão pela qual a multinacional “continuará a investir na sua proteção e na educação do público sobre como evitar fraudes”, como também mostra no último “Relatório sobre Experiência de Compra Confiável”: https://archive.ph/roxFI.
Avaliação Lusa Verifica: Falso
É falso que seja possível ganhar entre 100 e 400 euros por dia a montar canetas, pulseiras ou outros materiais em casa, como está a ser amplamente publicitado através de anúncios fraudulentos em várias redes sociais, com vídeos e supostos testemunhos gerados por IA.
O esquema que usurpa a imagem da Amazon Handmade promete ganhos elevados, incluindo bónus e comissões iniciais obtidos através tarefas simples, mas rápidas, mas os participantes acabam burlados ao terem de efetuar pagamentos ou compras para acederem às comissões iniciais e a um suposto clube vip com “mais vantagens”.
Luís Galrão