Web Summit: É “muito difícil” condenar Assange porque faz trabalho de jornalista – conselheiro jurídico Wikileaks
Lisboa, 08 nov (Lusa) -- O conselheiro jurídico da Wikileaks Juan Branco defendeu hoje, em Lisboa, ser "muito difícil" condenar judicialmente Julian Assange, já que o fundador daquela organização limita-se a fazer o mesmo trabalho que muitos jornalistas.
"É uma situação muito difícil. Ele não é 'hacker' [pirata informático], não roubou informação, recebeu informação e publicou-a. É muito difícil obter uma condenação judicial, porque teriam de condenar também muitos órgãos de comunicação social. Então, por isso, a técnica é deixá-lo neste limbo judicial, detido na embaixada", afirmou hoje Juan Branco aos jornalistas à margem da Web Summit, em Lisboa.
O jornalista e programador informático Julian Assange, de 45 anos, está refugiado na embaixada do Equador em Londres, capital britânica, desde junho de 2012. Há dez anos, Assange fundou a Wikileaks, organização multinacional dedicada a publicar e interpretar documentos confidenciais sobre má conduta de governos e corporações.
Juan Branco, de 27 anos, nasceu em Espanha, vive em França, é filho de um português (o produtor de cinema Paulo Branco) e trabalha há cerca de três anos com a organização.
Durante uma conferência de imprensa hoje, no âmbito da Web Summit, sublinhou a importância de distinguir-se fontes e publicadores. "A Wikileaks não 'hacka' ['pirateia']. Recebemos informação anónima. É muito importante distinguir a maneira como a informação é obtida pelas fontes e quem publica. Quando a informação é de interesse público tem que ser divulgada, independentemente de onde vem", afirmou.
Foi o "interesse público" que, disse, levou a organização a decidir divulgar nos últimos meses mais de 30 mil 'emails' da candidata democrata às presidenciais dos Estados Unidos, Hillary Clinton, de um servidor privado que esta utilizou quando exerceu o cargo de secretária de Estado.
Além disso, o portal divulgou cerca de 20.000 mensagens de correio eletrónico enviadas e recebidas por membros do Comité Nacional Democrata.
"Era impossível guardar esta informação [de Hillary Clinton] até depois das eleições, por razões óbvias", defendeu.
Juan Branco considera que Julian Assange "fez o que qualquer jornalista faria: publicar informação que tinha em sua posse, para que as pessoas pudessem tomar uma decisão informada [na hora de votar]".
Para o conselheiro legal da Wikileaks e de Julian Assange, a campanha eleitoral das eleições que se realizam hoje dos Estados Unidos foi "um processo muito triste": "Democraticamente, não houve grandes debates sobre as grandes questões e nenhum dos dois conseguiu convencer o eleitorado americano. Além disso, na Europa as consequências da eleição de um e de outro não serão muito positivas", lamentou.
Confessando não ter "nenhum apreço ideológico" por Donald Trump, nem ter "conseguido aderir" a Hillary Clinton, Juan Branco disse ser "um pouco como o Julian [Assange], que já fez muitas demonstrações de apoio à candidata verde".
Além de participar na Web Summit, Juan Branco aproveita esta semana em Portugal para fazer parte do Lisbon & Estoril Film Festival, organizado por Paulo Branco e que decorre até domingo.
"Quero ver toda a retrospetiva de Godard", confidenciou.
Quando questionado sobre se a vida de Julian Assange daria um bom argumento para um filme, respondeu prontamente que sim.
"Já houve um filme que não foi muito bom, mas era uma boa ideia preparar outro filme sobre ele. É um projeto que estamos a tentar lançar, com produtores franceses. Temos um projeto interessante", contou.
A Web Summit de Lisboa, que arrancou na segunda-feira, conta com mais de 53.000 participantes, de 166 países, incluindo 15.000 empresas, 7.000 presidentes executivos e 700 investidores.
Entre os oradores, estarão os fundadores e presidentes executivos das maiores empresas de tecnologia, bem como importantes personalidades das áreas de desporto, moda e música.
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