Contexto moçambicano favorece proliferação da desinformação

O presidente e jornalista da Mediacoop, grupo de media moçambicano, Fernando Lima, intervém durante a conferência

Maputo, 10 jul 2019 (Lusa) - A sociedade moçambicana não está imune à proliferação de notícias falsas e o contexto que se vive no país facilita o fenómeno das 'fake news', que são uma ameaça à democracia, defenderam hoje em Maputo jornalistas.

O efeito nocivo das 'fake news' foi vincado na conferência "Combate às fake news: uma questão democrática", organizada hoje em Maputo pela Lusa.

"O próprio contexto moçambicano facilita a propagação de notícias falsas", declarou o presidente e jornalista da Mediacoop, grupo de media moçambicano, Fernando Lima, falando como orador do primeiro painel da conferência.

O jornalista deu o exemplo da imposição aos órgãos de comunicação social públicos de uma lista de 40 analistas políticos pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido no poder, conhecido como "G-40", que favoreceu um ritmo elevado de disseminação de notícias falsas.

"O G-40 usou notícias falsas para complementar o seu trabalho, dirigindo ataques até com teor racista", a vozes críticas à governação da Frelimo, disse.

Fernando Lima assinalou que fotos de corpos a flutuar tiradas em outros países foram publicadas em meios de comunicação social nacional e estrangeiros como se tivessem morrido vítimas das cheias e ventos que se seguiram à passagem do ciclone Idai no centro de Moçambique, mais uma prova de que o país não está imune às 'fake news'.

Tomás Vieira Mário, jornalista, jurista e presidente do Conselho Superior de Comunicação Social de Moçambique (CSCS), contou um episódio em que circulou um rumor que o dava como novo governador da província de Gaza, no sul do país, levando a população da sua aldeia natal, na província de Inhambane, sul, a fazer uma festa e curandeiros a oferecerem-se para o untarem de "poderes".

O jornalista expôs igualmente um caso em que o ex-Presidente moçambicano Joaquim Chissano foi confrontado por um jornalista à chegada a Maputo sobre um falso golpe de Estado no país durante a sua visita de Estado ao Brasil para corroborar a ideia de que a falsificação de notícias foi sempre um fenómeno presente na realidade moçambicana.

A diretora de informação da agência de notícias Lusa, Luísa Meireles, enfatizou que não há uma "chave do cofre" onde estão guardados os segredos do combate às 'fake news', mas as sociedades democráticas devem lançar mão a instrumentos como a verificação factual, visando a prevalência da verdade.

"Houve sempre desinformação, é um fenómeno ancestral, todos os poderes usaram a desinformação para intoxicar a opinião pública", declarou Luísa Meireles.

A literacia mediática e a verificação dos factos são ferramentas que podem ser usadas para o combate às 'fake news', referiu a jornalista.

 

Paulo Machicane (texto) e António Silva (foto)