Diretores de informação consideram haver deprezo pelo código deontológico

Um popular compra os jornais num quiosque de venda de revistas e jornais, em Lisboa, 13 de julho de 2013. Nos últimos anos, na Avenida da Liberdade, em miradouros pelas sete colinas, nos jardins, à beira Tejo, nas praças, os quiosques foram nascendo ou ganhando vida “como cogumelos” e, reinventando um centenário hábito lisboeta, puseram a cidade a mexer. (ACOMPANHA TEXTO). MIGUEL A. LOPES / LUSA

Lisboa, 07 abr 2019 (Lusa) - Alguns diretores de informação de órgãos de comunicação social nacionais consideraram hoje, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, haver um certo desprezo pelo código deontológico, sendo este um dos principais fatores da crise do jornalismo.

Num colóquio sobre os desafios do jornalismo num mundo em crise, Maria Flor Pedroso, diretora de informação da RTP, realçou que devem ser os jornalistas a cuidar do jornalismo, através da deontologia.

"O jornalismo cuida-se com as normas deontológicas. Tem um código deontológico que não é para emoldurar", disse.

Maria Flor Pedroso explicou que entende o jornalismo como um serviço público e que os jornalistas devem continuar a perguntar, a querer saber, a confrontar e a verificar para "não caírem nas garras das 'Fake News'".

Por seu lado, Luísa Meireles, diretora de informação da agência Lusa, considerou que "o rigor é uma arma poderosa no jornalismo", sendo confundido, segundo defendeu, com a crise no modelo de negócio.

Dando o exemplo da Lusa, Luísa Meireles reconheceu que a agência de notícias tem como "'business' produzir notícias", "produzi-las rapidamente sem prejudicar o rigor", dando credibilidade à empresa: "aqui [Portugal] e no mundo lusófono em geral", frisou.

Para Graça Franco, diretora de informação da Rádio Renascença, há uma luta que tem de ser travada contra a preguiça no jornalismo.

"Há uma luta que temos de travar imediatamente, que é contra a preguiça. A todos os níveis. O que vamos selecionar, o que vamos dar importância. Se aquilo que outros estão a falar é importante", interrogou, alertando para "o desprezo pelo código deontológico" e para a ignorância do mesmo.

No último debate do colóquio "Sete vidas -- o futuro do jornalismo", o diretor de Informação da SIC e diretor-geral de informação do grupo Impresa, Ricardo Costa, defendeu que há uma questão que mudou tudo no jornalismo, que foi a revolução tecnológica.

"O algoritmo do Facebook e do Google precisam de 'Fake News' para obterem mais 'likes'. Funciona através de progressão geométrica básica, que trabalha em função dos nossos gostos e indiferente ao que é real", sublinhou Ricardo Costa, demonstrando preocupação.

Por seu lado, o ex-diretor do Expresso Pedro Santos Guerreiro afirmou que a tecnologia tornou obsoleto o modelo de negócio e não o jornalismo.

"Nunca esquecemos aquilo que nos torna especiais, o compromisso. O nosso compromisso é com a sociedade, com o país", disse, recordando que o poder do jornalismo resulta sempre do leitor.

Pedro Santos Guerreiro sublinhou também que a tecnologia não só pode garantir mais leitores como também novas ferramentas.

De acordo com Manuel Carvalho, diretor do Público, o jornalismo deve ser contrapoder, deve estar do lado contrário do Estado, defendendo as subscrições de jornais como nos Estados Unidos, Brasil ou Noruega.

"Eu recuso-me a um cenário no qual a comunicação é patrocinada, financiada, pelo Estado. Acho que isso é uma antítese total daquilo que é o nosso papel enquanto jornalistas. Nós temos de estar do outro lado do poder. Somos claramente contrapoder", declarou.

Por sua vez, Armando Esteves Pereira, diretor-geral editorial-adjunto da Cofina, considerou que houve "pirataria" por parte das plataformas digitais, originando a migração da publicidade dos jornais para a internet.

O colóquio "Sete vidas -- o futuro do jornalismo" decorreu este fim de semana no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, onde foram discutidos vários temas relacionados com o futuro do jornalismo português, ao longo de sete debates.

João Moura Lacerda