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É falso que ‘fact-checkers’ recusaram avaliar estudo que diz que só 20% dos ciganos em Portugal trabalham

Lisboa, 30 abr 2026 (Lusa Verifica) – É falsa a acusação e a alegada notícia partilhada por vários dirigentes do Chega que afirma que “Polígrafo, Lusa Verifica e SIC Verifica recusam avaliar estudo da UE que conclui que só 20% dos ciganos em Portugal trabalham”.

 

Alegação: “Polígrafo, Lusa Verifica e SIC Verifica recusam avaliar estudo da UE que conclui que só 20% dos ciganos em Portugal trabalham”

Desde dia 18 de abril, vários dirigentes do Chega têm feito publicações que incluem uma captura de ecrã de uma alegada notícia do jornal Folha Nacional, a publicação doutrinária do partido, com o título “Polígrafo, Lusa Verifica e SIC Verifica recusam avaliar estudo da UE que conclui que só 20% dos ciganos em Portugal trabalham”.

As primeiras publicações surgiram nas contas de André Ventura em várias redes sociais, nas quais o presidente do Chega acrescentou: “percebem porque não confiamos em nenhum destes autodenominados 'fact-checks' que agora estão por todo o lado???” (https://archive.ph/hv6jY, https://archive.ph/w1MXi e https://archive.ph/sHfbE).

Alguns dias depois, a 22 de abril, essa publicação foi divulgada pelo deputado João Tilly, que comentou que “os Mentigrafos são desinformação e escumalha pura”: https://archive.ph/fLgP2.

O alegado artigo do Folha Nacional foi também partilhado pelo vice-presidente do Chega, Pedro Frazão, com o comentário: “Há os [que] se arrogam guardiões da verdade, mas atuam como filtros ideológicos! O Polígrafo, o SIC Verifica e a Agência Lusa mostram bem que não procuram esclarecer! O que procuram é moldar a narrativa da sua agenda. E os portugueses já todos perceberam” (https://archive.ph/8Urrz e https://archive.ph/55E2P).

 

Factos: o estudo da UE é real e foi divulgado em outubro, mas refere 21% e as acusações contra os “fact-checkers” são falsas

Nenhuma das publicações destes e de outros responsáveis do Chega inclui links para o alegado artigo ou para o dito estudo da UE, nem existe qualquer notícia com aquele título ou conteúdo na página do Folha Nacional ou nas suas redes sociais (https://archive.ph/4xwkA), pelo que a imagem que está a ser partilhada não corresponde a uma captura de ecrã real, mas sim a um conteúdo forjado.

No entanto, a Lusa Verifica detetou que, a 8 de abril, Dia Internacional dos Ciganos, o jornal do Chega publicou um artigo com a alegação sobre o facto de “em Portugal apenas 20% dos ciganos trabalham”, enquanto “no resto da Europa a média é de 54%”: https://archive.ph/Bm1OE.

No texto, que não está assinado nem faz qualquer referência aos verificadores de factos, lê-se que “um estudo sobre as comunidades ciganas em Portugal revela uma baixa participação no mercado de trabalho e uma elevada dependência de apoios sociais”, mas nem a data nem a origem do estudo são reveladas.

De acordo com o mesmo artigo, “apenas cerca de 20% dos indivíduos inquiridos afirmam ter uma profissão ou atividade profissional, enquanto 54% estão desempregados, à procura do primeiro emprego ou nunca trabalharam”.

Na mesma data, estes dados foram partilhados pelo presidente do Chega nas redes sociais, com a acusação de que “não vão ver isto na imprensa portuguesa” (https://archive.ph/dbc0t), e numa entrevista ao canal Now, onde André Ventura reiterou “que apenas 20% da comunidade cigana em Portugal está a trabalhar”, afirmando que “os dados são de um estudo da União Europeia”, cujo documento prometeu enviar aos jornalistas do Now: https://archive.ph/B9Qo8.

No dia seguinte, o canal Now explicou ter recebido o estudo, que na realidade é um relatório publicado em 2025 pela Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), facto facilmente verificável na página desta instituição autónoma da UE: https://archive.ph/NJPRi.

Trata-se de um relatório divulgado a 2 de outubro de 2025, com base no “Inquérito sobre os Ciganos de 2024”, que em Portugal contou com 422 entrevistas e que “fornece dados comparáveis sobre o impacto real da legislação e das políticas da UE e nacionais de combate à discriminação, ao racismo e de promoção da igualdade sobre os ciganos/itinerantes”: https://archive.ph/BrQ2O.

O documento “Direitos dos ciganos e itinerantes em 13 países europeus: perspetivas do Inquérito sobre os Ciganos de 2024” abrange sete grandes áreas, incluindo discriminação, pobreza e exclusão social, ensino, emprego e habitação, e analisa dezenas de indicadores principais e secundários para cada tópico, comparando também os resultados de 2024 com os dados das edições anteriores em 2016 e 2021.

Para o tópico emprego, o documento e as tabelas de dados anexas revelam que em Portugal 21% dos ciganos responderam estar a trabalhar, menos 10 pontos percentuais que em 2021 (31%) e menos 17 pontos percentuais que em 2016 (38%), valores muito abaixo da média da UE em 2024, que foi de 54%, como se lê no resumo sobre Portugal: https://archive.ph/sVuXy.

Esta percentagem de 21% patente no relatório é ligeiramente superior aos 20% referidos nestas publicações do Chega e também não corresponde às alegações anteriores de André Ventura, que em 2020 afirmava que “só 15% dos ciganos vivem do seu trabalho”, valor que reviu em baixa em 2025, para 14%, ambos dados incorretos segundo verificações de factos feitas à data pelo Polígrafo: https://archive.ph/olJZU e https://archive.ph/lPc6x.

 

Contraditório: é falso que os projetos de verificação recusaram verificar o estudo da FRA

Mas será verdade que os projetos de verificação de factos Polígrafo, Lusa Verifica e SIC Verifica recusaram agora avaliar o estudo da UE? No caso do Lusa Verifica a resposta é clara: é falso.

Além da evidente independência editorial face a eventuais expectativas ou solicitações, nem o Lusa Verifica nem a direção de informação da agência Lusa receberam qualquer pedido de verificação do relatório da FRA, cuja publicação ocorreu há mais de seis meses e foi oportunamente noticiada em pelo menos três artigos da Lusa sobre os vários indicadores apurados: https://archive.ph/sEbOr, https://archive.ph/O7LIC e https://archive.ph/rrhw1.

Em resposta ao Lusa Verifica, a SIC também refutou categoricamente as acusações do Chega: “não nos foi, em nenhum momento, solicitado qualquer pedido de verificação e/ou ‘fact-check’ sobre o assunto. O que aconteceu foi, sim, uma acusação infundada de que o SIC Verifica recusou abordar o tema, o que é falso.”

Segundo a SIC, “uma vez que essa sugestão nunca chegou ao SIC Verifica - nem pelo Chega nem por outra qualquer via - seria impossível tê-la recusado, tal como a publicação partilhada por André Ventura acusa”.

Na mesma resposta, a SIC esclarece também que, “tal como qualquer outro meio de comunicação social, tem a liberdade e a independência editoriais de decidir quais os temas a verificar ou analisar” e reforça que neste caso “a posição [da estação] foi, é e será sempre independente e imparcial na seleção das verificações que efetua."

Por seu lado, o jornal Polígrafo explicou que “está e estará sempre aberto a sugestões dos leitores, que habitualmente enviam pedidos de ´fact-checks´ através dos vários canais disponíveis para o efeito”, mas esclareceu que “a seleção do conteúdo a verificar é da inteira responsabilidade da equipa do Polígrafo e deve responder a uma série de requisitos, que envolvem desde logo a projeção e o interesse público do tema.”

O Lusa Verifica questionou o Chega sobre que dados objetivos sustentam a acusação de que os três projetos de verificação recusaram avaliar o dito estudo, incluindo se o Chega ou algum dos seus dirigentes e/ou funcionários formalizaram alguma sugestão ou pedido de verificação sobre aquele tema, mas o gabinete de comunicação do partido limitou-se a enviar o PDF do relatório da FRA.

O Chega foi também questionado sobre o alegado artigo do Folha Nacional representado na imagem partilhada por André Ventura, nomeadamente se a captura de ecrã refere-se a um artigo real ou é uma imagem forjada com um título sem correspondência direta com qualquer conteúdo publicado no jornal, na página do jornal na Internet e nas respetivas redes sociais, mas também ficou sem resposta.

Num contacto posterior com o vice-presidente do Chega, a quem foram colocadas as mesmas questões, Pedro Frazão respondeu apenas que “em vez de verificar as afirmações sobre o estudo”, a Lusa deveria “verificar o estudo, que é o que está em causa.”

 

Avaliação Lusa Verifica: Falso

É falso que “a Lusa Verifica, o Polígrafo e a SIC Verifica recusaram avaliar um estudo da UE que conclui que só 20% dos ciganos em Portugal trabalham”, como afirmaram André Ventura e outros dirigentes do Chega nas redes sociais.

Também é falsa a imagem da alegada notícia do Folha Nacional partilhada por André Ventura, Pedro Frazão e outros dirigentes, dado que ao jornal oficial do Chega não tem publicado qualquer artigo com aquele título ou outro sobre a alegada recusa de verificação.

Além de serem editorialmente independentes, estes projetos não receberam qualquer pedido ou sugestão de verificação sobre o documento referido, que é um relatório divulgado a 2 de outubro de 2025 pela Agência dos Direitos Fundamentais da UE, no qual se refere que 21% dos ciganos portugueses declararam ter trabalho remunerado em 2024, e cujas principais conclusões foram alvo de cobertura noticiosa pela Lusa e por outros órgãos de comunicação social.

Luís Galrão