É falso que governador do BdP abandonou programa de TV e anúncio era fraude
Lisboa, 20 abr 2026 (Lusa Verifica) – Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal (BdP), não abandonou um programa da SIC nem o jornalista Camilo Lourenço divulgou um negócio milionário com um reduzido investimento inicial, como afirma um anúncio fraudulento nas redes.
Alegação: “Economista acusa o Banco de Portugal de esconder uma forma de ganhar dinheiro que enriquece pessoas comuns à custa dos bancos”
Desde o início do mês, estão a circular vários anúncios nas redes sociais da empresa Meta, sobretudo no Facebook, sobre um alegado escândalo ocorrido no programa Casa Feliz, da SIC, apresentado por João Baião, onde uma emissão “terminou com a saída inesperada do governador do Banco de Portugal após as revelações que ele não conseguiu refutar”: https://archive.ph/kb1me.
Algumas das várias versões do anúncio são ilustradas por um aparente confronto físico entre Álvaro Santos Pereira e o jornalista Camilo Lourenço (exemplos: https://archive.ph/vXJt0, https://archive.ph/E7dhC e https://archive.ph/bVHRW) e remetem para uma página que aparenta ser do jornal económico ECO, com o título “«Estão a roubar as famílias portuguesas!» — programa da SIC terminou em escândalo: governador do Banco de Portugal abandona o estúdio furioso”: https://ghostarchive.org/archive/XaH6c.
Segundo essa alegada notícia, “o que deveria ter sido um debate sobre créditos e inflação acabou em caos total”, com Camilo Lourenço a “acusar o Banco de Portugal de esconder uma forma de ganhar dinheiro que enriquece pessoas comuns à custa dos bancos.”
De acordo com o texto, Álvaro Santos Pereira abandonou o estúdio após ouvir o jornalista de economia promover um “sistema de negociação automatizado baseado em inteligência artificial”: “eu uso um sistema chamado ‘Êxito Controleza’. Não é um banco. É um algoritmo que aproveita automaticamente as flutuações do mercado. Eu uso-o. A minha equipa usa-o. Os resultados? Superam tudo o que os fundos e as contas poupança têm para oferecer.”
O alegado sistema permitiria a qualquer pessoa ganhar milhares de euros por mês a partir de um investimento pequeno: “Olhe para o meu telemóvel. Aqui estão os dados de um utilizador do Porto. Começou com 275 euros. Agora ganha 7.000 euros por mês. Sem crédito. Sem dívidas aos bancos. Estará ele a mentir?”, teria questionado Camilo Lourenço, segundo o anúncio fraudulento.
Factos: É mais uma fraude de promoção de plataformas de criptoativos
A análise dos vários conteúdos, sobretudo da alegada notícia do ECO, cujo endereço e hiperligações não correspondem aos reais, revela imediatamente tratar-se de mais um esquema financeiro fraudulento promovido com vídeos ou fotografias de figuras públicas gerados através de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), como já foi verificado anteriormente com a imagem do primeiro-ministro: https://archive.ph/x0Ltf.
Neste caso, na página do Casa Feliz não existem registos de uma participação recente das duas figuras - Álvaro Santos Pereira e Camilo Lourenço - (https://archive.ph/pgIMo), e este último já veio esclarecer que o seu nome está a ser abusivamente utilizado na promoção de burlas através da Internet: https://archive.ph/cjzL5.
A Lusa Verifica também analisou a conta de Facebook que parece estar na origem dos anúncios gerados com IA, nomeadamente a página de Mauri Olmedo (https://archive.ph/O3mYB), e constatou que a mesma já publicou cerca de 1.900 anúncios do mesmo tipo, cerca de 300 dos quais em Portugal: https://ghostarchive.org/archive/PEZdP?wr=false (escolher a opção “Archived page not displaying properly? Click here” caso o arquivo não esteja visível).
Após análise da página, nomeadamente do menu de transparência do Facebook, é possível aceder à biblioteca de anúncios da Meta e detetar vários indícios de se tratar de uma página ‘hackeada’, uma suspeita confirmada por Maurício Olmedo, um cidadão mexicano que explicou à Lusa Verifica que continua a tentar recuperar o acesso.
“Tudo começou quando detetei um vírus no meu computador (...). Pouco depois, começaram a comprometer várias das minhas contas de redes sociais, incluindo o PayPal, embora tenha conseguido bloquear este último a tempo. Recebi também alertas constantes sobre tentativas de ‘login’ na minha conta de Facebook vindas de diferentes partes do mundo”, contou através de uma entrevista realizada através de um número de WhatsApp pessoal que em tempos divulgou naquela página.
Apesar de ter desencadeado os processos de alerta e de recuperação da página, incluindo a alteração das credenciais, os acessos não autorizados continuaram e este mexicano de 28 anos ainda não controla a administração da sua página, que contava já com mais de 430 mil seguidores.
Na biblioteca de anúncios da Meta também é possível perceber que os burlões por detrás do esquema surgem de destinos tão diferentes como a Ucrânia ou a Tailândia, e têm publicado anúncios em vários países além de Portugal, com histórias semelhantes de polémicas em programas televisivos de Espanha, Croácia ou Grécia.
O valor investido em cada anúncio apenas está visível quando estes são associados a questões sociais, eleições ou política. Nesses casos, encontram-se montantes entre os 100 e 800 dólares (85 e 680 euros) por anúncio, por vezes de poucas horas, o que significa que o esquema poderá já ter rendido centenas de milhares de euros à Meta: https://ghostarchive.org/archive/l3etd?wr=false.
A Lusa Verifica contactou a empresa através da assessoria de imprensa e de um responsável da Meta Iberia, a representação em Espanha, bem como o departamento de comunicação do Banco de Portugal, mas ainda não obteve respostas, embora este tipo de esquemas seja uma preocupação do banco central português: https://www.bportugal.pt/page/nao-caia-na-armadilha-saiba-como-se-proteger-de-falsos-investimentos-em-criptoativos.
No entanto, ao longo de mais de uma semana, foi possível assistir aos bloqueios que a Meta implementou quase diariamente aos novos anúncios colocados pelos ‘hackers’, embora apenas após várias horas de exibição e alcances de dezenas ou centenas de milhares de utilizadores.
Na sexta-feira, 17 de abril, por exemplo, chegaram a estar ativos cerca de 53 anúncios (https://ghostarchive.org/archive/Z36DX?wr=false), 19 dos quais em Portugal: https://ghostarchive.org/archive/P7vew?wr=false (escolher a opção “Archived page not displaying properly? Click here” caso o arquivo não esteja visível).
À semelhança de outras fraudes promovidas através das redes sociais, os anúncios nem sempre têm ligação direta à página fraudulenta. Nos casos analisados pela Lusa Verifica, quando estão ativos há um direcionamento para um url com um falso artigo do jornal ECO, no qual são promovidas plataformas de ‘trading’ de criptoativos com nomes como Valor Gestência, Vasto Câmbiante, Cunha Investório, Savenix AI ou Rápida Fundovka, entre outros.
Destas, até ao momento apenas foi detetada ligação a um url dedicado para a Rápida Fundovka (https://archive.ph/jWOx5), mas todas as outras utilizam urls dinâmicos com o mesmo conteúdo ou semelhante, bem como nomes de outras plataformas de ‘trading’ já conhecidas de outras fraudes, e também recorrem à utilização abusiva de outras figuras públicas que alegadamente recomendam o negócio, como investidores como Warren Buffett e Larry Fink, ou mesmo o humorista Ricardo Araújo Pereira.
Quando o link da publicação patrocinada ou anúncio não está ativo no Facebook, o esquema direciona para uma constelação de dezenas de páginas falsas como esta: https://archive.ph/dV3h4, sem ligação direta aparente com as páginas das plataformas de criptoativos.
Estão também a ser usadas outras páginas do Facebook igualmente ‘hackeadas’, como a da artista italiana Alma Manera, cujos atuais administradores já pagaram quase 300 anúncios para um esquema idêntico, todos já removidos (https://ghostarchive.org/archive/qkzsi?wr=false), aqui com recurso a pequenos vídeos gerados por IA sobre uma alegada agressão entre ‘clones’ mais inverosímeis de Álvaro Santos Pereira e de Camilo Lourenço: https://archive.ph/2gZlc (exemplo).
Além deste caso, circulam outras fraudes idênticas com outras figuras públicas como os pivôs José Rodrigues dos Santos ou Rodrigo Guedes de Carvalho e um responsável do Banco Santander, como também já foi denunciado na plataforma Madeira Opina: https://archive.ph/5cncU, mas também foram detetadas fraudes associadas a nomes como a pivô Clara de Sousa e o escritor António Lobo Antunes.
Avaliação Lusa Verifica: Falso
São falsos os anúncios e as páginas que promovem um negócio milionário que teria irritado o administrador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, durante um programa televisivo.
É também falso que o jornalista Camilo Lourenço tenha promovido um tal investimento.
À semelhança de casos anteriores, trata-se de um esquema fraudulento que recorre à utilização abusiva da imagem de várias figuras públicas para promover plataformas de comercialização de criptoativos.
Luís Galrão