Combate às “fake news” é oportunidade para “melhor jornalismo” sem obsessão pelas notícias virais

icon-play

Lisboa, 08 fev 2019 (Lusa) -- O jornalista Paulo Pena defende que o combate às notícias falsificadas é uma oportunidade para os jornalistas fazerem “mais e melhor jornalismo”, sem competirem com o “mundo da desinformação”, nem ficarem obcecados por notícias virais.

Em entrevista à agência Lusa, o autor de uma série de reportagens no DN sobre ‘fake news’ em Portugal, afirma-se otimista e explica formas possíveis de dar resposta a esta ameaça à democracia e ao jornalismo.

“Vou ser otimista. As ‘fake news’ são um bom pretexto para que o jornalismo pense sobre si próprio” e retome a “relação difícil” entre a sociedade e a comunicação social, de forma a que os cidadãos percebam que é no jornalismo que se obtém “informação verificada para poder tomar decisões, sejam elas quais forem”, diz.

O contexto económico, admite, não é fácil dado que o sucesso “se baseia não apenas num critério de qualidade, mas num critério de alcance, de viralidade”.

“Se nós andamos a tentar competir em viralidade com os ‘sites’ de desinformação vamos perder essa guerra”, porque duas pessoas, “dois técnicos de informática, montam um ‘site’ que consegue ter muito mais alcance” do que um órgão de informação, descreve.

Uma notícia no Correio da Manhã em Portugal, que é um jornal de grande audiência, “não tem tanta audiência” como a “mesma notícia repetida por um ‘site’ chamado Bombeiros 24, que é um ‘site’ de desinformação”, exemplifica.

Para Paulo Pena, “é importantíssimo” dedicar atenção ao problema, fazer “aquilo a que se chama agora a literacia mediática e mostrar às pessoas” que leem os media que, aí, a “informação é tratada de uma maneira profissional, que tem regras, tem códigos, tem ética e que aqueles 'sites' não estão a produzir informação.

No caso de Portugal, a revelação sobre as páginas de desinformação, pelo DN e por outros jornais, “pode ter tido um efeito profilático”, ou seja, “mostrar que é possível descobrir quem está por trás destes ‘sites’ a tempo”.

“Os Estados Unidos tentaram fazer isso, mas já era demasiado tarde, o efeito já tinha sido sobre umas eleições em concreto, no Brasil a mesma coisa. Aqui em Portugal, conseguimos a tempo mostrar que é possível encontrar quem faz os ‘sites’, mostrar aos visados que podem fazer uma queixa judicial, que podem acusar aquele ‘site’ de violar o seu bom nome, violar os seus direitos de personalidade”, afirma.

 

“Sites” de desinformação também são “mass media”

 

Olhando para a situação, Paulo Pena tem uma posição diferente daqueles que dizem que o fenómeno tem ainda pouco peso ou de “penetração diminuta” em Portugal.

O Reuters Institute fez um estudo sobre o alcance deste tipo de “notícias” e a conclusão a que chegou foi que “os ‘sites’ de 'fake news' são muito pouco vistos pelas pessoas, mas o alcance, nas redes sociais, no Facebook e Twitter, no WhatsApp, é muito maior do que o da imprensa tradicional”, afirma.

Essa é uma realidade escondida, e que tem uma explicação possível. “Nós vivemos em ‘bolhas’ de informação nas redes sociais. Os nossos amigos provavelmente não partilham ‘fake news’. Os amigos dos nossos pais, se calhar, partilham só ‘fake news’ e não partilham notícias normais. E esses mundos não comunicam, não têm nenhum tipo de interligação”, diz.

Nos trabalhos que publicou no DN sobre a realidade portuguesa, o jornalista olhou audiências e fez contas.

Fazendo a contabilidade a dez “sites” associados de produção de ‘fake news’ concluiu que “tinham dois milhões se seguidores”.

Conclusão: “Não é uma pequena penetração, é uma penetração de grande ‘mass media’.”

 

A favor da regulação das plataformas

 

Paulo Pena defende, ainda, uma regulação a nível europeu das plataformas do tipo Facebook ou Twitter para retirar “informação comprovadamente falsa”.

“A União Europeia já se pronunciou sobre isso, a legislação está mais ou menos agora numa fase de negociação difícil. Tem de haver uma regulação”, afirma.

Países como a Alemanha “já conseguiram criar um mecanismo para obrigar as grandes plataformas como Facebook e Twitter a retirar informação comprovadamente falsa num período curtíssimo”, sob o risco de uma multa pesadíssima de 500 mil euros”, exemplifica.

“É um bom mecanismo de defesa quando as redes sociais, que nunca agem como publicações, embora sejam as maiores publicações do mundo, [são onde] a maioria dos cidadãos obtém a sua informação”, acrescenta.

É importante que, por exemplo, a Google seja obrigada a ter “critérios muito definidos para aceitar ou não publicar coisas” ou de pagar publicidade a um ‘site’ que “só faz desinformação, que só publica mentiras”, afirma o jornalista.

Nuno Simas (texto) e Hugo Fragata (vídeo)