Investigadora alerta que ‘fake news’ é fenómeno escondido em Portugal, mas vai aumentar

icon-play

Lisboa, 07 fev 2019 (Lusa) - O fenómeno das ‘fake news’ em Portugal está ainda algo escondido da opinião pública, mas “vai aumentar” até às eleições deste ano, europeias e legislativas.

O aviso é feito, em entrevista à agência Lusa, pela jornalista e investigadora do ISCTE Ana Pinto Martinho, que, além de todas as iniciativas em curso da União Europeia e do Governo, aconselha os cidadãos a serem os primeiros a perceber o que são e como se podem “desmontar” as notícias falsificadas nos media ‘online’ ou nas redes sociais.

“O fenómeno já está em Portugal, está bastante escondido e nós muitas vezes não nos apercebemos do que é que está a acontecer. Mas ele já existe”, afirmou a docente do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

Apesar de admitir que tem uma “penetração menor” em Portugal, a especialista alerta que ainda não se realizaram eleições, o que vai acontecer este ano com europeias e legislativas, “com o fenómeno já em pleno desenvolvimento”.

Sem querer fazer comparações com outros países e eleições presidenciais, como a de Donald Trump nos EUA ou Jair Bolsonaro no Brasil, porque são realidades diferentes, não arrisca previsões quanto ao efeito do surgimento de novas formações políticas, populistas, em tese como o partido Chega.

Portugal, afirmou, deverá acompanhar o aumento deste tipo de informações falsas ou manipulação, através de ‘sites’ na Internet e das redes sociais: “Acredito que vamos ver isto aumentar em Portugal, assim como por toda a Europa”.

“Há grandes probabilidades de haver um aumento deste tipo de estratégias. Já conhecemos que isto, em períodos eleitorais, aumenta como aumentavam também as questões da propaganda há uns anos”, disse.

A investigadora, que em Portugal é uma das responsáveis pelo relatório anual do Digital Report do Reuters Institute for the Study of Journalism, tem uma explicação para esta penetração limitada e para o nível de confiança nas notícias.

“Uma das razões pelas quais em Portugal nós acreditamos que também ainda continua a haver alguma confiança nas notícias é porque o nosso país, pelo menos até agora, não tem sido um país muito polarizado do ponto de vista político. Temos muito mais concentração ao centro do que nos extremos, mas isto é algo que pode mudar”, acrescentou.

 

Cidadão deve fazer primeiro “filtro”

 

Ana Pinto Martinho defende, também, que uma das respostas para combater as ‘fake news’, ou informações falsificadas, deve começar pelo cidadão, que deve fazer a verificação de factos, do que lê, em especial na Internet.

“Os jornalistas têm de fazer mais do que todos [a verificação de factos], mas eu também, enquanto cidadã, tenho de fazer alguma verificação”, disse, alertando ainda para a importância da literacia para os media.

“Quando partilho algo, também tenho uma responsabilidade de ver se aquilo poderá ser ou não uma notícia que seja falsa, uma ‘fake news’, ou algo que seja mais duvidoso”, argumentou, desaconselhando a “partilha cega”, apenas por ler um título.

Como não há nenhuma “solução milagrosa”, há várias estratégias possíveis a trabalhar e algumas delas “vão demorar algum tempo”, como a educação para os media.

Ana Martinho segue a “grelha de análise” em cinco passos do Center for Media Literacy (Centro para Literacia nos Media), com sede nos Estados Unidos, que pressupõe um sentido crítico da parte dos cidadãos ao lerem textos, ‘memes’ (pequenos vídeos manipulados que se tornam virais) ou verem vídeos na Internet e nas redes sociais.

 

As cinco perguntas que o cidadão deve fazer

 

Em primeiro lugar, é preciso perceber quem e se for alguém, por exemplo, com o nome Bombeiros 24, um dos ‘sites’ associados por uma investigação do DN à difusão de “fake news”, tem de se perguntar “o que é?”, exemplificou.

“Tenho de ver se é um órgão de comunicação social, se tem jornalistas a trabalhar, de quem é? Não sendo algo conhecido como jornal ou televisão ou revista, que já são mais conhecidas”, descreveu a investigadora à Lusa, num trabalho preparatório sobre ‘fake news’, tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título “O Combate às Fake News - Uma questão democrática”.

Em segundo lugar, surge o formato.

“Se for um ‘meme’, tenho de pensar duas vezes e se calhar não confiar tanto nele. Ou ver mais informação sobre o assunto”, afirmou, sendo nesta parte da verificação que Ana Martinho aconselha mais os cidadãos a também o fazer.

Depois, surge a audiência e a tentativa de “perceber para quem é que se destina” aquele conteúdo. “E às vezes conseguimos perceber perfeitamente a quem se destinam determinadas informações”, disse.

Em quarto lugar, aparece “a parte do conteúdo”, tentar percebê-lo “do ponto de vista crítico”.

Por fim, o cidadão deve refletir sobre qual será o “objetivo que estas pessoas têm ao estar a veicular esta informação”.

Em matéria de responsabilidade, Ana Martinho não responsabiliza, em última análise, os cidadãos por este “combate”, embora alerte para o risco da “falta de sentido crítico” da parte destes.

As responsabilidades para combater o problema das ‘fake news’, considerada uma “ameaça à democracia” pela União Europeia, devem ser alargados e incluir as plataformas tecnológicas.

Nuno Simas (texto) e Hugo Fragata (vídeo)