Espanhóis sentem-se como os europeus mais enganados pelas ‘notícias falsas’

Madrid, 24 jan 2019 (Lusa) – Os espanhóis são os europeus que se sentem mais enganados pelas 'notícias falsas' e têm dúvidas sobre as medidas que devem ser tomadas contra este flagelo que tenta desestabilizar o sistema político e económico das democracias consolidadas.

Os analistas têm dúvidas sobre se os organismos do Estado devem tomar medidas para contrariar essa desinformação, mas a fragmentação política tem impossibilitado a aprovação de políticas concretas.

De acordo com uma sondagem realizada em julho passado pelo Instituto IPSOS (estudos e pesquisas de mercados) em 27 países, 57% dos espanhóis admitem ter considerado como verdadeiras informações falsas ou 'notícias falsas' ("fake news" em inglês).

O relatório coloca os espanhóis na quinta posição do 'ranking' mundial de cidadãos que se sentem enganados por esse tipo de notícias, depois dos brasileiros (67%), sauditas (58%), sul-coreanos (58%) e peruanos (57%).

No entanto, o país lidera essa lista se apenas forem considerados os países europeus, seguido pelos suecos (55%), polacos (55%), belgas (45%), alemães (43%), franceses (43%), britânicos (33%) e italianos (29%).

Por outro lado, a sondagem do IPSOS indica que os espanhóis culpam os políticos (59%) e os jornalistas (44%) pela existência de um grande desconhecimento ou perceção errada sobre certas realidades sociais (número de imigrantes ou evolução do crime).

"Certos políticos não ajudam na resolução do problema ao valorizarem certos aspetos das ideias que defendem em detrimento de outros", alerta o especialista em meios jornalísticos digitais da Universidade de Navarra Ramón Salaverría, em declarações à agência Lusa.

Para este investigador, o "aumento da polarização política" e "certos interesses económicos" também são responsáveis pelo desenvolvimento de campanhas de desinformação.

Ramón Salaverría defende que a luta contra as 'notícias falsas' não deve ser liderada por políticos que aprovem medidas que "rapidamente podem cair em práticas de censura", nem apoiadas em "medidas tecnológicas sem a intervenção humana".

"O que pode ajudar a resolver o problema, a prazo, é o desenvolvimento cultural dos cidadãos espanhóis", sublinha o especialista em meios digitais, defendendo a "incorporação" no ensino obrigatório de aulas que mostrem aos alunos como detetar as informações falsas.

A Espanha também tem sido alvo das organizações que difundem 'notícias falsas' e que "atacaram" o país com essas práticas, tendo isso acontecido principalmente durante o processo independentista catalão, em 2017, com o objetivo de também influenciar e desestabilizar outros países europeus com movimentos nacionalistas importantes.

Essas notícias asseguravam, por exemplo, que a "Catalunha foi um Estado no passado, portanto tem o direito a sê-lo no futuro", o que deu munições aos movimentos separatistas no seu relato contra a unidade de Espanha.

Por seu lado, o professor de Comunicação e Política Internacional na Universidade Europeia José Maria Peredo é da opinião de que os poderes políticos deviam tomar medidas contra as 'notícias falsas', mas admite ser difícil no atual contexto partidário espanhol "muito fragmentado" e com um Governo minoritário em Madrid.

Durante 2018 não foi possível aprovar várias propostas para lutar contra essas notícias, nomeadamente uma do Partido Popular (direita) para criar um Centro de Operações de Segurança de luta contra as campanhas de desinformação e outra do PSOE (socialistas) para estabelecer protocolos para eliminar os conteúdos falsos.

Os jornalistas têm avançado em Espanha com vários projetos para detetar as 'notícias falsas', sendo um dos mais importantes a criação da 'página' na internet 'Maldita.es'.

O projeto pretende dar à cidadania "ferramentas" de luta contra a desinformação, nomeadamente através da monitorização do discurso político e as informações que circulam nas redes sociais, com a análise das mensagens utilizando técnicas de verificação do jornalismo de dados.

"Os jornalistas espanhóis estão muito preocupados com o aumento das 'notícias falsas', sobretudo neste ano eleitoral", disse o presidente da Federação das Associações de Jornalistas de Espanha (FAPE) à Lusa.

Nemesio Rodríguez também apontou o dedo a "alguns líderes políticos" que contribuíram para a difusão de falsidades nas eleições regionais na Andaluzia de 02 de dezembro último, nomeadamente ao "oferecerem dados alarmistas que contradiziam as estatísticas oficiais" em temas como a imigração e a violência de género.

Para o presidente dos jornalistas espanhóis, "os poderes públicos têm de fazer mais", sendo necessário "reforçar a alfabetização mediática", tendo a FAPE proposto ao Governo a criação no ensino secundário obrigatório (12-16 anos) da disciplina de jornalismo/comunicação para ensinar "como funcionam os média, que fontes são fiáveis e quais não são, entre outras coisas".

"Os políticos devem deixar de mentir, os jornalistas e os média devem desmontar as mentiras, venham elas de onde venham, e as plataformas digitais devem investir mais na luta contra as 'fake news'", afirmou Nemesio Rodríguez.

O professor de Comunicação da escola de negócios EAE Carlos Salas defendeu, por seu lado, a necessidade de "cada vez mais haver bons jornalistas" para "neutralizar" as 'notícias falsas'.

"Não há nenhum método para neutralizar as 'notícias falsas' e a melhor técnica é desmascará-las quando elas se convertem em virais", conclui o especialista.

Fernando Paula Brito