Imprensa independente na Hungria é escassa e recorre a donativos dos leitores

epa04605760 A hand operates above a laptop's keyboard in London, Britain, 06 February 2015. The Investigatory Power Tribunal on 06 February 2015 ruled, that Britain's intelligence agency GCHQ sharing private communications of UK residents with US authorities was contravening Articles from the European Court of Human Rights (ECHR) but now complies.  EPA/ANDY RAIN

Budapeste, 22 mai 2019 (Lusa) -- A "pouca" imprensa independente que ainda existe na Hungria está a recorrer a donativos dos leitores, nomeadamente através da angariação de financiamento coletivo ('crowdfunding'), para ter receitas suficientes que a tornem imune às pressões do Governo.

Criado em 1999, o jornal 'online' Index.hu comemora, por estes dias, 20 anos de existência, afirmando, orgulhosamente, ser um dos principais e dos poucos meios de comunicação livres do país.

"Sempre fomos um jornal 'online'. De início, não fomos bem vistos pelos jornais impressos, não nos levavam a sério, mas com o decorrer do tempo esses meios foram desaparecendo. Alguns ainda existem, mas não se comparam a nós em termos de independência", afirmou em entrevista à agência Lusa o diretor-adjunto do Index, Gábor Miklósi.

Falando à Lusa em Budapeste, na redação do jornal que conta com cerca de 70 jornalistas, Gábor Miklósi apontou que o Index "está no 'top' três dos meios de comunicação social mais influentes" do país, tendo entre 10 mil a 15 mil visitas diárias.

"Sim, somos independentes. Não trabalharia aqui se não o fossemos. Somos dos poucos que ainda o somos. Não temos ninguém a interferir com o conteúdo editorial, o que também é um desafio", sublinhou Gábor Miklósi.

Para garantir esta independência, contribuem as equilibradas contas financeiras do jornal.

"O que torna o Index diferente de todos esses jornais é que não tem prejuízos. Todas essas publicações que foram encerradas [porque foram adquiridas por investidores ligados ao Governo] tinham grandes prejuízos, o que as tornava vulneráveis", descreveu Gábor Miklósi.

No caso do Index, o jornal "é financiado pela publicidade, mas também por donativos dos leitores através de campanhas de 'crowdfunding'", referiu o responsável, apontando que este financiamento coletivo arrancou em outubro e, atualmente, representa 10% do total das receitas.

"Até ao final do ano [as campanhas de 'crowdfunding'] vão equivaler a 20%. É o primeiro ano em que o fazemos e vamos continuar no ano seguinte", notou Gábor Miklósi.

E o objetivo é claro, de acordo com o diretor-adjunto da publicação: "Quanto mais formos financiados pelos leitores, mais salvos estamos desse tipo de pressões".

Segundo Gábor Miklósi, o atual executivo, liderado desde 2010 pelo partido conservador Fidesz, "tem um mau histórico de estratégias que afetam meios de comunicação social independentes: ou os estão a comprar para os tornar pró governo ou para os fechar".

"O Governo encara os meios de comunicação social independentes, especialmente o Index, como inimigos. Precisam de um inimigo para legitimar as suas políticas", acusou o jornalista.

Apesar destas garantias de independência, sobre o Index recaem, contudo, dúvidas sobre o futuro.

O jornal fazia parte de um grupo com vários meios de comunicação e, há dois anos, foi comprado pela fundação privada Magyar Fejlodésért Alapítvány, que "ninguém sabe muito bem quem tem por detrás", mas que tem alegadas ligações ao Fidesz.

"O problema coloca-se quando começarmos a estar expostos a quem está por detrás dessa fundação. É muito obscuro, também não sabemos de onde vem o dinheiro, mas o que é importante para nós é que eles não estão a interferir com as decisões editoriais", indicou Gábor Miklósi à Lusa.

Apesar de "os últimos meses terem sido pacíficos", o responsável admitiu que "há uma certa indefinição para o Index".

Também de 'crowdfunding' vive o jornal 'online' Mérce, sediado em Budapeste e composto por jovens jornalistas e ativistas.

Szilárd István Pap, membro da plataforma, explicou à Lusa que o Mérce surgiu para "fugir às restrições impostas aos 'media', em termos de financiamento e de abordagem".

"Queríamos ter apenas financiamento dos leitores através de 'crowdfunding'. O acesso é livre -- mas não temos 'paywall' [conteúdos pagos] nem nada --, mas pedimos uma doação aos leitores desde 2015", indicou.

Segundo este responsável, esta forma de financiamento "funciona bem" e permite pagar aos 15 profissionais do Mérce, entre os quais jornalistas, sociólogos e 'designers'.

Um outro problema apontado por este jovem tem a ver com o facto de o "mercado publicitário estar completamente nas mãos do Governo", o que leva a que, por vezes, tentem dissuadir empresas privadas de anunciar nestes 'media' independentes.

"Não diria que existe um controlo total dos meios de comunicação social na Hungria, mas sem dúvida que não há liberdade de imprensa. E isso deve-se aos problemas de financiamento, à pressão sobre os meios de comunicação independentes e até ao facto de o primeiro-ministro [Viktor Órban] nem sequer falar connosco", adiantou Szilárd István Pap.

As entrevistas foram feitas dias antes das eleições para o Parlamento Europeu, que decorrem no domingo na Hungria.

Ana Matos Neves