Afirmar o jornalismo combatendo a desinformação – André Veríssimo

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Lisboa, 18 fev 2019 (Lusa) -- O combate às notícias falsas pode acabar por servir para o jornalismo se afirmar, por oposição às 'fake news' e como garante de veracidade dos factos, defende o diretor do Jornal de Negócios, André Veríssimo.

"As redes sociais vieram acabar com o monopólio que os media tinham na intermediação da informação até às pessoas. Temos de aceitar que possam existir outras formas de intermediação, mas serve para o jornalismo se afirmar por oposição a essas 'fake news' como um garante de veracidade dos factos", afirmou em entrevista à agência Lusa o diretor daquele jornal económico.

André Veríssimo, que falava à Lusa sobre a realidade das 'fake news', a propósito da conferência que a agência portuguesa e a espanhola Efe vão realizar no dia 21 de fevereiro, em Lisboa, sobre "O Combate às Fake News - Uma questão democrática", lembra que "notícias falsas sempre houve".

A tentativa de manipular ou a propaganda são tão velhas como a história. O que é que mudou então? "Eu acho que o que mudou é que essas campanhas nunca dispuseram como hoje de um instrumento tão poderoso para as disseminar como são as redes sociais, e as redes de mensagens, como o WhatsApp, que permitem com recursos financeiros não muito avultados conseguir um impacto muito significativo na disseminação dessas informações", explica.

O poder das redes sociais é tão grande que hoje já ninguém duvida "que é possível manipular resultados de eleições ou resultados de referendos. Hoje tornou-se uma ameaça muito maior e eu acho também que por isso hoje se fala tanto nas notícias falsas", considera André Veríssimo.

Sobre a ameaça que esta desinformação representa para o jornalismo dos dias de hoje, o diretor do Jornal de Negócios considera que se trata "ao mesmo tempo de um desafio e de uma oportunidade".

E explica que são um desafio, porque "cada vez mais os jornalistas são confrontados com tentativas de manipulação da informação. Desafio, porque essa tentativa de manipulação é cada vez mais sofisticada" e tudo aponta para que "venha a ser ainda mais sofisticada no futuro com a utilização da inteligência artificial de forma a criar imagens texto e áudio falsos".

Essa sofisticação pode fazer com que seja "difícil perceber e identificar que se trata na verdade de uma tentativa de desinformação".

O problema de os media "caírem" nas armadilhas das informações manipuladas é que "se uma publicação publicar informação que depois se vai revelar falsa, num primeiro momento ajudou a credibilizar essa informação e a dar-lhe muito mais amplitude. Num segundo momento é obviamente penalizador para o contrato de confiança que tem que existir entre os media e os seus leitores, ou espetadores".

A oportunidade surge com a consciência de que a desinformação tem vindo a crescer utilizando sobretudo as redes sociais e, assim, diz o jornalista, "cresce junto dos leitores e dos espetadores a perspetiva de que é de facto necessário ir à procura de informação verdadeira e a necessidade de cada vez mais se apoiar o jornalismo no sentido de garantir que as sociedades continuam a ter acesso a informação fiável e verdadeira".

Em relação a Portugal, o diretor do Jornal de Negócios defende que o fenómeno ainda é incipiente e que não sentiu ainda na sua redação a necessidade de "tomar medidas muito concretas para acautelar esse risco".

"Não sentimos que seja um risco demasiado elevado ou iminente", disse.

No entanto, diz-se convencido de que essas tentativas "vão chegar muito provavelmente com mais força a Portugal".

Que soluções? "Reafirmar a cultura que faz parte da deontologia do próprio jornalismo, do rigor dos factos, de verificar informação, de 'checkar' com várias fontes. É importante termos uma disciplina muito maior nesse exercício para que não sejamos vítimas da desinformação".

Sobre a "onda" dos 'fact checkings', Veríssimo percebe porque é que estão em voga, mas esclarece que não são mais do que "a natureza do próprio jornalismo".

O uso da tecnologia para combater as 'fake news' é bem vista, até para que a luta se dê ao mesmo nível: "Se a tecnologia é uma arma para a desinformação, também tem de ser uma arma para quem a combate".

Quanto aos atos eleitorais, André Veríssimo lembra os casos das eleições americanas, ou o referendo do Brexit, como sinais de perigo. "Acho que estamos muito longe desses níveis. Não quer dizer que também não cheguem cá. É possível e até provável que essas campanhas mais organizadas também cheguem a Portugal e este é um ano de eleições. Portanto, se calhar todo o cuidado é pouco".

 

João Pedro Fonseca (texto), Hugo Fragata (vídeo) e Inês Ferreira Araújo (edição vídeo)