Ameaça é enorme, combate passa por formação e maior exigência dos jornalistas

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Lisboa, 11 fev 2019 (Lusa) - O 'publisher' do ECO, António Costa, considera que a ameaça das 'fake news' é "enorme pela descredibilidade que traz para os media" e defende a formação e maior exigência dos jornalistas para combater o fenómeno.

Questionado pela Lusa sobre qual é o grau de ameaça das 'fake news', o 'publisher' do 'site' económico considerou ser "enorme pela descredibilidade que traz aos media", do ponto de vista "da sua credibilidade e da sua afirmação junto da audiência, dos leitores, telespetadores, ouvintes".

Isto porque notícias que são falsas "têm, num primeiro impacto, um efeito que é descredibilizar e afetar a qualidade e a imagem e a reputação dos jornalistas como um todo, de um órgão de comunicação social que é apanhado", prosseguiu o jornalista à Lusa sobre a realidade das 'fake news', a propósito da conferência que a agência e a Efe vão realizar no dia 21 de fevereiro, em Lisboa, sobre "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Por outro lado, têm também um impacto "positivo", no sentido que "obriga-nos a estar muito mais atentos. E esse é um desafio" que os jornalistas precisam de ter em conta perante o fenómeno que se chama 'fake news', "que na verdade sempre existiram", continuou.

Ou seja, as 'fake news' "não são novas", mas "ganharam uma nova dimensão por causa da tecnologia e isso é que é a novidade do que hoje classificamos de 'fake news', notícias falsas ditas por políticos, por líderes empresariais, líderes económicos, líderes sociais", salientou António Costa.

As notícias manipuladas sempre existiram e "o trabalho dos jornalistas sempre foi desmontar essas 'fake news', essas mentiras. O que é mais difícil agora é o contexto tecnológico que permite que as 'fake news' tenham (...) uma dimensão de realidade muito mais densa, muito mais substantiva, sendo obviamente muito mais difícil fazer a despistagem, quer para nós jornalistas, quer para os leitores", apontou.

Questionado sobre que medidas a tomar, António Costa disse que "há duas dimensões de medidas" que podem ser tomadas "e que não são medidas 'Big Bang'", ou seja, que "não se tomam num dia e já está", mas antes um trabalho contínuo.

"É uma dimensão de exigência que se vai colocar e que se coloca hoje aos jornalistas, que vai continuar independentemente das medidas que venham a ser tomadas", considerou.

Para António Costa as 'fake news' não vão acabar, pelo que o trabalho no seu combate é individual e em conjunto.

"Por um lado, formação. Formação aos jornalistas e formação tecnológica para despistar as 'fake news'. Há hoje ferramentas tecnológicas que permitem isso", apontou, salientando que "felizmente" a tecnologia está ao serviço de quem produz 'fake news', mas também ao serviço dos media.

"Portanto, a utilização massiva, a formação para utilização de ferramentas que permitam despistar, combater, anular e perceber o que é que são as 'fake news'" é uma aposta e "um trabalho contínuo.

"Depois, na verdade, a essência do jornalismo, que é fazer jornalismo", perante um tempo que obriga à rapidez, a ser o primeiro a dar a notícia.

"Às vezes essa necessidade de chegar primeiro obriga-nos a ser rápidos e não fazer (...) todo o trabalho completo que devemos todos os dias fazer", referiu António Costa.

"Os jornalistas, cada vez mais, e as direções, que obviamente também têm uma responsabilidade particular porque também impõem um ritmo muito forte às redações, têm a responsabilidade de parar para pensar e para balancear a importância de um jornal dar uma notícia em primeira mão e o risco que corre em propagar uma 'fake news', uma notícia falsa", considerou.

"Mas eu acho que esse é o segundo nível de exigência que se coloca. Por um lado, ferramentas tecnológicas, formação. Por outro lado, jornalismo na sua essência mais pura, mais densa", sublinhou.

"Sermos exigentes com o jornalismo que fazemos, com as notícias que publicamos, garantindo que podemos e devemos conseguir fazer o melhor (...), ser credível e dar informação primeiro, mas sem que isso ponha em causa o tempo necessário que as notícias têm sempre que exigir e exigem da sua verificação e da sua confirmação", apontou.

Questionado sobre a eventual fiscalização, António Costa rejeitou o termo, considerando tratar-se de uma "expressão excessiva" que faz lembrar a "censura" e "coloca a tónica no ponto errado".

Na sua opinião, "a fiscalização deve ser feita pelos leitores", que são "o melhor fiscalizador" que os media têm, independentemente da dimensão legal que conta com o regulador dos media ERC ou a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.

"Acho que há um papel que talvez possamos ter e que podemos ter que é: como é que podemos educar os leitores? Como é que os podemos envolver nesta dimensão das 'fake news'"? questionou, salientando que "não é um caminho fácil".

"Há algum trabalho conjunto de sensibilização, de formação, não é de jornalistas dentro dos jornais ou da comunicação social das empresas jornalísticas de jornais, é de formação dos próprios leitores, de os tornar exigentes", nomeadamente no que respeita à dimensão local.

Ou seja, notícias locais que aparecem nas redes sociais.

"Utilizando as ferramentas que temos todos nós, jornalistas, temos que trabalhar com os leitores para que eles possam ser atores também na verificação desse processo", exemplificou.

Apontou ainda a criação de organizações internacionais de jornalistas e associações que se unem com os jornais de vários países e que "também é uma resposta global" às 'fake news', que muitas vezes são transversais.

"Acho que os jornais têm tido essa capacidade de se unirem e de fazerem parcerias e esse também pode ser um caminho para limitar os riscos que hoje todos corremos com a desinformação", acrescentou.

"O que é que estamos aqui a falar quando falamos de 'fake news'? Para já tem que parecer real, se é facilmente identificada com uma mentira não chega a ser 'fake news' (...). Isso cria um nível de desinformação nomeadamente junto dos cidadãos, junto do público-alvo a quem essa 'fake news' se quer dirigir ou influenciar. Estamos a falar dessa dimensão de desinformação", alertou.

Por isso, "temos é que trabalhar todos os dias para garantir que essas pessoas estão bem informadas. Às vezes pode parecer uma luta desigual porque nós não sabemos quem as propaga (...) e "isso coloca-nos, de facto, um nível de exigência de trabalho muito grande", rematou.

ALU // JPF

Lusa/Fim

Alexandra luís (texto) e Hugo Fragata (vídeo)