Ameaça sobretudo para a democracia – Filipe Alves

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Lisboa, 18 fev 2019 (Lusa) -- O diretor de O Jornal Económico, Filipe Alves, defende que as chamadas 'fake news' representam uma ameaça "sobretudo para a democracia", já que põem em causa as bases do sistema político e da sociedade atuais.

"Representam uma ameaça para o jornalismo, mas sobretudo para a democracia. Ou seja, uma opinião pública bem informada e esclarecida é fundamental para que haja uma efetiva democracia", afirmou Filipe Alves em entrevista à Lusa, num trabalho preparatório sobre 'fake news', tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Nesse sentido, afirmou o jornalista, as 'fake news' são "uma ameaça a que haja um debate civilizado, um debate assente na verdade dos factos".

"Isso põe causa tudo aquilo em que acreditamos e tudo aquilo em que se baseia o nosso sistema político e a nossa sociedade. Nesse aspeto, as 'fake news' são uma espécie de subversão da verdade e algo que põe em causa os fundamentos da nossa sociedade", sustentou.

No entanto, para o jornalismo, Filipe Alves defende que as 'fake news', "curiosamente, são uma oportunidade".

"São uma oportunidade para que o jornalismo de qualidade tenha lugar e se possa afirmar. E, nesse sentido, acabam por tornar necessário o jornalismo. Pode parecer uma ameaça, e é, no sentido em que disputa a atenção do consumidor. Mas, para o jornalismo de qualidade é uma oportunidade. E acho que é isso que nós jornalistas temos que incorporar", explicou.

Apesar disso, o diretor de O Jornal Económico advoga a necessidade de se "combater as 'fake news' e todo o tipo de manipulação e de mentira que esse tipo de instrumentos permitem", já que "as consequências podem ser muito, muito más para toda a gente".

Esse combate passa, por exemplo, por "um esforço de literacia mediática que tem que ser levado a cabo". "Os cidadãos têm de perceber a importância do jornalismo de qualidade e isso é um trabalho que nós, setor, temos de fazer, eventualmente com o apoio das autoridades", defendeu.

Os jornalistas não podem "criticar as pessoas por seguirem 'fake news'", "tentar que os políticos assumam essa responsabilidade" de combater o fenómeno, ou "passar para outros essa responsabilidade".

"Nós, jornalistas, temos de começar o trabalho por dentro. Temos de voltar a olhar para os manuais e voltar para o básico. Temos de fugir à tentação do jornalismo dos interesses, que está dependente dos interesses económicos, políticos, religiosos, desportivos, seja o que for. É um desafio para toda a gente", defendeu.

Além disso, os jornalistas têm de ser "capazes de levar a sério a questão da deontologia" e "isso passa por organismos de autorregulação eficazes".

"Temos de ter uma estrutura de autorregulação que seja efetiva, porque se essa autorregulação funcionar vai ser muito mais difícil fazer mau jornalismo, e isso acaba por ter como consequência um aumento da confiança do público", disse.

Quanto a mudanças na redação do semanário desde que este fenómeno surgiu, Filipe Alves revelou que tanto ele como a sua equipa passaram a ser "mais cuidadosos" na forma como trabalham a informação.

"Tentamos fugir à tentação do clique, um problema do setor todo, aquela tentação para puxar visitas. E temos vindo a fazer um esforço crescente, gradual e sustentado no sentido de apostar na melhoria dos conteúdos, com conteúdos com personalidade, e também no cumprimento de regras deontológicas, que nos últimos anos, eu falo a nível do setor, estiveram um bocado postas de parte", partilhou.

Para Filipe Alves, "as marcas de informação que sobrevivem melhor ao teste do tempo, à crise de confiança causada por este tipo de fenómenos, e que conseguem criar um modelo de negócio sustentado a prazo, são aquelas que levam a deontologia a sério".

Lembrando que existem agências noticiosas e jornais "com mais de cem anos", Filipe Alves defendeu que só se atinge essa meta "com uma informação séria, credível, independente e rigorosa", que é "o básico".

"A Reuters e a France Presse têm muitos anos e uma história muito longa, que só foi possível porque há uma relação de confiança entre os seus leitores e esses meios. No fundo, o que temos de fazer é um bocado o 'back to basic' [voltar ao básico, em português]", reforçou.

E, embora perceba "a intenção" da escolha do termo 'fake news', o diretor de O Jornal Económico não concorda com ele, porque "uma notícia falsa não é uma notícia".

 

Joana Ramos Simões (texto), Hugo Fragata (vídeo) e André Campos Ferrão (edição vídeo)