Catarina Carvalho defende mais verificação e mais calma nas redações

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Lisboa, 06 fev 2019 (Lusa) - A diretora executiva do Diário de Notícias defende uma nova atitude no jornalismo para combater a desinformação, "mais verificação, mais calma, um esforço maior de perceber o que é verdade e o que não é verdade".

Referindo que as 'fake news' fazem parte de uma tendência de desinformação e de descredibilização dos media que é a maior ameaça ao negócio, "porque há uma falta de credibilidade incrível, porque tudo se confunde, porque tudo o que é certo e o que é errado vale o mesmo", Catarina Carvalho propõe mais cuidados para combater a atual ameaça à credibilidade jornalística.

"No jornalismo tem de haver um esforço maior de verificação, um esforço maior de calma, um esforço maior de perceber o que é verdade e o que não é verdade", afirmou a diretora executiva daquele jornal centenário que passou a imprimir apenas uma vez por semana, mas continuando a ser um jornal diário na internet.

A velocidade das notícias é hoje um problema para as redações e Catarina Carvalho lembra um caso recente que se passou no seu jornal: "Tivemos uma notícia que saiu no jornal El Español, de que o miúdo que se encontrava preso num poço em Espanha tinha sido encontrado morto. E para nós, como sempre acontece, uma fonte só não nos serve. Fomos confirmar com a agência EFE, não tinha nada na linha. Tentámos o El País e o El Mundo, a Cadena Ser... Era mentira. Nós não demos a notícia".

Foi a decisão correta, para Catarina Carvalho, mas com consequências. "Esse rigor paga-se em cliques. Nós fomos o site com menos cliques do momento. Porquê? Porque não demos uma mentira. A pressão do mercado é de que o tamanho do site se mede pelas visualizações e pessoas que nos seguem. Portanto, quando nós não damos uma notícia bombástica, esperamos 10 minutos para a confirmar ou não a damos mesmo..."

A diretora do DN considera que tem de haver alguma compensação para o rigor, e tem esperança que os leitores recompensem esses cuidados.

A grande diferença dos dias de hoje com o jornalismo que se fazia antes da internet prende-se com o tempo. O sistema de passagem de informação é muito diferente daquele que existia quando havia tempo.

"Quando havia tempo e a gente tinha uma edição por dia. Nós tínhamos tempo de confirmar a informação, de perceber qual era a fonte, de ver se a fonte era credível ou não. A seguir decidíamos se dávamos a informação ou se não dávamos a informação", explica.

Agora é tudo decidido no momento e, "de repente, há três sites portugueses que publicam uma notícia cuja base é um jornal estrangeiro e 'vai tudo a eito'".

Catarina Carvalho diz estar a remar contra esta tendência, tentando "'não ir a eito' e, por outro lado, assumir os erros e dizer: 'Sim, nós errámos!'".

A diretora executiva do DN assume que o jornal já tem caído nessa vertigem do clique e lembra um caso recente: "Demos a notícia da morte de uma pessoa importante e demos porque um jornal credível a tinha dado: o Público. E acabámos por ter que dizer: 'Nós errámos. Fizemos mal. O Público foi enganado pela fonte. Nós errámos'.

Em relação à forma como as redações podem combater este fenómeno das 'fake news', Catarina Carvalho distingue os vários tipos de notícias falsificadas.

As 'fake news' muito básicas, que "os jornalistas percebem logo que são erradas. Exemplo, as notícias de que o papa apoia o Trump. Isso é obviamente falso", diz.

"O problema são as notícias em que nós não conseguimos perceber qual é a origem. Às vezes é um estudo científico que não se percebe qual é a fonte, mas que parece credível" e para este tipo de notícias os cuidados têm de ser redobrados.

Há depois as notícias que são criadas sem objetivos políticos, procuram apenas o clique, que resulta em publicidade, lucro.

Catarina lembra as primeiras notícias falsas que existiram na campanha de Trump, feitas por entidades na Estónia. Era muito mais uma diversão, uma tentativa de obter lucro porque um clique nos Estados Unidos vale mais em publicidade do que um clique num país do Leste europeu.

Há notícias falsificadas que são muito óbvias para jornalistas, mas há muitas que não são. O papel dos jornalistas na verificação das fontes é muito importante.

Em relação aos instrumentos que podem ser usados, Catarina lembra os disponibilizados pela Google, que permitem verificar se a origem da informação, por exemplo, é a mesma origem da fotografia, ou se um vídeo teve origem no site que o pôs no ar, que permite fazer o 'tracing' para trás, do sítio onde aquela informação foi colocada.

"Foi com esses instrumentos, com o trabalho do Paulo Pena, sobre as notícias falsas, que conseguimos chegar a sites no Canadá que eram as origens dessas notícias falsas que estavam a ser publicadas em Portugal", exemplifica a diretora do DN.

No projeto sobre notícias falsificadas do DN, o jornalista Paulo Pena conseguiu perceber quais eram os sites que estavam a publicar as notícias falsas para ganhar tráfego e a Google fechou a torneira de publicidade nesses sites. Neste caso, a verificação feita pela redação do DN teve um efeito na sociedade. A Google informou que tinha fechado o patrocínio através dos anúncios expostos automaticamente naqueles sites, que davam mais de 10 mil dólares por mês. "Não era assim uma brincadeira tão simples", conclui Catarina.

Catarina Carvalho também está convencida que em 2019 "é provável que haja um aumento do fluxo de informação falsa porque vai haver imensas eleições, entre elas as europeias, em que há muitas forças que têm interesse em que forças mais populistas ganhem peso".

Em Portugal, o caso mais conhecido, com motivações políticas, foi precisamente este rastreado pelo DN, que identificou a sua origem no Canadá.

"Nos dois casos existia um interesse político de uma direita contra alguma esquerda, sobretudo da esquerda associada ao PS, da coligação parlamentar. Houve notícias falsas sobre António Costa, Ana Gomes e Catarina Martins. Um dos sites chamava-se direita política. Tinha mesmo esse objetivo", explicou. Portugal ainda não verificou consequências eleitorais de desinformação na internet, mas Catarina lembra o caso dos coletes amarelos: "Tivemos um fenómeno de 'flop'. Os coletes amarelos foram difundidos pelos mesmos sites que publicavam essas notícias falsas. Muitos deles. Mas depois foi um 'flop'. Até foi positivo, sinal de uma certa maturidade intelectual do público português".

 

João Pedro Fonseca (texto) e Hugo Fragata (vídeo)