Classe política brasileira soube tirar proveito do fenómeno – Jornalista projeto ‘Comprova’

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Brasília, 01 mar 2019 (Lusa) - O jornalista brasileiro Douglas Rodrigues, que integrou o projeto 'Comprova', afirmou que a classe política do Brasil soube tirar proveito das notícias falsificadas ('fake news') durante as eleições de 2018.

Em entrevista à agência Lusa, Douglas, que fez parte do 'Comprova', um projeto que juntou jornalistas de 24 meios de comunicação brasileiros com o intuito de descobrir e investigar informações enganadoras, inventadas e deliberadamente difundidas durante a campanha presidencial de 2018, assegurou que os políticos sabem, em muitos casos, que determinadas informações são falsas, mas isso não os impede de as divulgar.

"Eu acredito que [os políticos] sabem que as 'fake news' existem e outros aproveitam-se delas. No entanto, acredito que com o trabalho de verificação, onde vários veículos de comunicação mostram o que é verdadeiro ou falso, os políticos estão a ficar mais espertos na demonstração daquilo que estão a fazer", afirmou o jornalista do portal de notícias brasileiro Poder360.

Para o jovem jornalista, as 'fake news' fazem parte de um jogo político, onde é muitas vezes usada a "deslegitimação da imprensa" quando a verdade é reposta através do trabalho de verificação dos jornalistas.

"Muitos dizem que a imprensa é que está a mentir. Eles usam isso como parte do jogo político. Querem deslegitimar a imprensa para poderem tirar proveito disso. Alguns aceitam [a investigação dos jornalistas] e acabam por fazer as devidas correções, mas outros simplesmente ignoram. É uma luta diária", disse.

Contudo, passado o período de sufrágio, Douglas Rodrigues confirmou que o fenómeno persiste na comunidade brasileira, principalmente em casos de grande cobertura mediática, como é exemplo o caso da recente rutura da barragem de Brumadinho.

"O desabamento da barragem em Brumadinho foi um exemplo. Vários políticos estavam a partilhar informações e fotografias falsas daquela barragem. Então, fizemos uma verificação explicando o que era verdadeiro ou não" e "percebemos que ainda é necessário fazermos esse trabalho de verificar e explicar o que é verídico no dia a dia", frisou.

Não é fácil mostrar que determinada informação é adulterada ou falsa, e o leitor tende a precisar de provas, e, segundo Douglas, é com essa certeza que os jornalistas que integraram o projeto Comprova efetuam o seu trabalho de averiguação.

"Percebemos que o jornalismo teve de se adaptar a este novo cenário e tentamos mostrar ao leitor a verdade de determinada notícia. E como é que nós fazemos isso? Publicando documentos na sua íntegra, colocando sempre mais informações que possam ajudar na comprovação da veracidade de certa informação, como áudios de uma entrevista, ou fotos de um evento", explicou.

"Não adianta apenas o jornal dizer que aconteceu tal facto, temos de explicar porquê e como chegámos àquela notícia", detalhou Douglas.

Porém, para o jornalista, a força das redes sociais e a falta de cultura mediática contribuem para o crescimento das notícias falsificadas.

"As pessoas ainda não sabem verificar as informações, não sabem diferenciar se determinado veículo de comunicação social tem credibilidade para noticiar um assunto, ou se é um simples blogue", concluiu Douglas Rodrigues.

 

Marta Moreira