Debater o tema “é importante” para que haja consciência do fenómeno – Marjory van den Broeke

Lisboa, 21 fev 2019 (Lusa) - Marjory van den Broeke, chefe da Unidade do porta-voz do Parlamento Europeu, defendeu que é "importante" debater as 'fake news' para que as pessoas tenham consciência do seu impacto e sublinhou que os Estados-membros estão empenhados no seu combate.

A responsável europeia participa hoje numa conferência organizada pela Lusa, em parceria com a congénere espanhola Efe, sobre "O Combate às Fake News - Uma questão democrática", que decorre em Lisboa.

Em vésperas das eleições europeias, que decorrem em maio, e num momento em que vários países da União Europeia vão ter sufrágios, o tema das 'fake news' [notícias falseadas ou manipuladas] assume uma maior importância, não só pelo impacto que já teve em resultados eletorais anteriores como também pelo facto das pessoas tenderem a acreditar em tudo o que leem, nomeadamente nas redes sociais.

"É realmente importante" debater o tema, "é importante para os media" de referência "como a Lusa", porque este fenómeno ameaça a credibilidade dos órgãos de comunicação social, considerou.

Também as instituições europeias estão atentas ao fenómeno e o debate "é importante", uma vez que os eleitores devem estar conscientes do seu impacto, refere Marjory van den Broeke.

"Há várias preocupações, a mais importante para nós agora, nas eleições de maio, é que as pessoas devem ser capazes de votar na base das suas próprias escolhas. E se forem ditas mentiras, e mentiras o tempo todo e se estas parecem confiáveis [verdadeiras], então essas escolhas são retiradas" aos eleitores, considerou a responsável.

Ou seja, "votam na base da escolha de outros e isso é muito mau para a democracia", apontou Marjory van den Broeke, que anteriormente foi jornalista.

Este fenómeno já foi identificado anteriormente, nomeadamente em 2016, com as eleições nos Estados Unidos.

Para Marjory van den Broeke, as 'fake news' são "um fenómeno que não é fácil de compreender", mas os especialistas "acreditam que está a ser amplamente espalhado", muitas vezes através de notícias 'bots' [robôs nas redes sociais], inteligência artificial, pelo que não se sabe "concretamente quem está a fazer o quê e onde".

Ora, "o que podemos saber, claro, é se algo é verdadeiro ou não", por isso "estamos principalmente focados nas histórias", prosseguiu a responsável.

Questionada sobre que medidas as instituições europeias podem tomar no combate às 'fake news', Marjory van den Broeke destacou o trabalho conjunto.

"Estamos a trabalhar em conjunto com outros institutos europeus para" alavancar "os nossos recursos, os nossos especialistas, o nosso conhecimento e os nossos alertas. O que fizemos, enquanto gabinete de imprensa no Parlamento Europeu, foi" alertar para as incorreções de informações.

"Se algo estava mesmo errado, incorreto, telefonávamos ao jornalista", pelo que na vez seguinte este, "antes de escrever a história contactava-nos para verificar se era verdade", adiantou.

Ou seja, o Parlamento Europeu já tinha procedimentos no sentido de corrigir informação que não fosse correta.

"O que estamos também a tentar fazer é literacia dos media, ensinar as pessoas a distinguir se algo é verdadeiro ou não e uma das coisas que é importante é falar sobre [isso], é debater para que mais pessoas estejam conscientes do que se passa e não é tão difícil descobrir se uma coisa está errada ou não", salientou a responsável.

"Mas há também modelos de negócio, alguns media que ganham dinheiro com 'clickbaits', escândalos que dão leitores e, claro, há a manipulação política de desinformação que de acordo com os especialistas vem na maioria das vezes da Rússia", alertou Marjory van den Broeke.

"O que estamos a tentar fazer primeiro é corrigir, deveriamos ser melhores a corrigir coisas nas redes sociais, é muito difícil", considerou.

"Somos capazes de o fazer em certa medida com os media" de referência, porque estes também consideram importante que a informação seja corrigida, disse.

Além disso, assiste-se à tendência das pessoas começarem a não acreditar em ninguém, o que inclui também os media.

Questionada sobre se os Estados-membros estão conscientes deste problema, a responsável pelo gabinete de imprensa do Parlamento Europeu considerou que sim, recordando que em dezembro os responsáveis dos governos adotaram um plano de ação contra a desinformação.

"Todos estão muito conscientes disso, as pessoas estão a começar a trabalhar em conjunto", sublinhou.

A Comissão Europeia apresentou no início de dezembro um plano de ação para combater a desinformação na União Europeia, no quadro das próximas eleições europeias, que inclui um sistema de alerta rápido para sinalizar 'fake news' em tempo real.

Marjory van den Broeke salientou que corrigir informação divulgada nas redes sociais é complicado, porque é difícil saber quem é que colocou a informação primeiro. Portanto, é preciso melhorar a este nível.

"Estamos a trabalhar em conjunto" e mesmo que os esforços não atinjam os "100% para as eleições" europeias, é algo "que vamos continuar depois" do sufrágio, garantiu.

Sobre se o caminho para debelar a desinformação vai ser longo, a responsável europeia disse estar consciente que será difícil de erradicar o fenómeno.

"Se ninguém mentisse viveriamos no paraíso, não acredito que possamos abolir todos os mentirosos no mundo", afirmou, recordando que a "desinformação sempre existiu".

Ou seja, já na Grécia antiga o problema existia, mas agora a informação "é mais rapidamente e facilmente disseminada" e quase impercetível, o que coloca novos desafios.

"Se em Atenas alguém estivesse no pódio a afirmar algo que fosse mentira, haveria alguém fisicamente lá a dizer: 'Isso não é verdade, és um mentiroso'", exemplificou.

Agora, "nas redes sociais isso não acontece e o problema é que as pessoas tendem a acreditar que o que veem ou leem", mesmo que não tenha sentido, e é preciso assegurar "que nem tudo aquilo que ouvem é verdade", apontou.

"É progresso passo a passo. Gostaria que nas eleições em maio estivesse tudo no lugar. Iremos tentar, mas não apostaria nisso. Daí que é importante continuar, após as eleições, porque haverá outras eleições" posteriormente, continuou.

Aos eleitores, Marjory van den Broeke deixa uma mensagem: "Vão votar em maio nas eleições europeias e se houver alguma coisa que queiram saber, perguntem-nos".

 

Alexandra Luís