“Desinformação” pode colocar em causa a democracia – diretor do Polígrafo

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Lisboa, 20 fev 2019 (Lusa) -- O diretor editorial do Polígrafo, Fernando Esteves, considerou que a "desinformação" pode colocar em causa a democracia, alertando que, com o desenvolvimento de sistemas de Inteligência Artificial, "hoje é possível inventar uma realidade".

"A desinformação é passível, tal qual ela está agora a ser produzida, de colocar em causa a democracia tal qual a conhecemos", afirmou Fernando Esteves à Lusa, explicando não ser adepto do termo 'fake news', porque "se é 'fake' [falso, em inglês] não é 'news' [notícia] e se é 'news' não é 'fake'".

O jornalista, considerando que hoje há uma grande preocupação com as chamadas 'fake news' -- "os políticos que mentem, as redes sociais que veiculam informações falsas, os comentadores que não estão à altura do que deveriam estar" -, alertou para as 'deep fakes', algo que "merece ser analisado, que é quando a Inteligência Artificial (IA) é aplicada à desinformação".

"Estão a ser desenvolvidos em todo o mundo sistemas de IA que serão, a curto prazo, capazes de manipular a imagem de alguém a dizer algo, que pode provocar um conflito diplomático. Hoje é possível colocar o Donald Trump a declarar guerra à Rússia com um grau de verosimilhança brutal, ou o primeiro-ministro a pedir a demissão em direto, através de um canal do Youtube", disse, a propósito da conferência que as agências Lusa e Efe vão realizar no dia 21 de fevereiro, em Lisboa, sobre "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

"Hoje é possível inventar realidade", reforçou, lembrando que "o processo de 'newsmaking' transitou de uma plataforma tradicional para uma plataforma digital, aproximando a realidade da fantasia".

E quando não se distingue realidade da fantasia "torna-se tudo muito perigoso, porque uma sociedade descrente é uma sociedade sem referências".

"E é para aí que estamos a caminhar. As pessoas que neste momento estão a trabalhar no domínio da IA, da distorção da informação, são pessoas altamente eficazes, altamente preparadas e com objetivos muito definidos, que passam por colocar em causa a ordem estabelecida. Isso é profundamente perigoso e nós, enquanto sociedade, não estamos ainda a conseguir reagir a este tipo de fenómenos", avisou.

Para Fernando Esteves, o combate à "desinformação" deve passar pelas plataformas, como o Twitter, o Facebook e o WhatsApp, pelo Estado enquanto promotor da literacia mediática, mas também pelos jornalistas.

"É óbvio que o Twitter tem de trabalhar no sentido de não permitir a criação de perfis falsos e a criação artificial de 'trends' de discussão, o WhatsApp tem claramente que restringir o tamanho dos grupos que cria e tem de restringir o número de partilhas que cada pessoa pode fazer, e o Facebook tem de instalar mecanismos de IA que lhe permitam combater, quase em tempo real, as informações erradas que são colocadas na linha", defendeu.

Além disso, para o diretor editorial do Polígrafo também é "óbvio" que o Twitter "tem de desenvolver ferramentas de IA no sentido de identificar imediatamente uma desinformação assim que ela é colocada na linha".

Fernando Esteves deu como exemplo um site de 'fact checking' brasileiro "que já tem uma experiência piloto a esse nível: Chama-se 'Fátima', um 'bot' que criaram para atuar no Twitter".

"O site tem uma bolsa de influenciadores que acompanha e, de cada vez que uma das pessoas que faz parte dessa bolsa publica uma informação que contradiz um 'fact check' que eles já têm no seu arquivo, o 'bot' dispara imediatamente o 'fact check' para a página desse influenciador e diz: 'o que o senhor disse não é verdadeiro, está aqui o nosso 'fact checking''. Isto por um lado desacredita o emissor da informação, por outro, e mais importante, inibe a partilha automática e acrítica", contou.

Quanto ao Estado, "tem obviamente de investir na literacia mediática".

"É absolutamente incontornável, já todos chegámos a essa conclusão. Quando falamos em investir em literacia mediática é desde o ensino básico, passando pelo preparatório, pelo secundário e pela universidade. As pessoas não têm hoje instrumentos, ou melhor têm, mas não sabem manejá-los, não os conhecem, para fazer a triagem de informação", defendeu.

Por último, os jornalistas: "Nós também temos essa responsabilidade [de combater as chamadas 'fake news']".

"Nós, jornalistas, temos a responsabilidade de fazer um escrutínio maior da informação, não bebermos a informação que nos chega das redes sociais, isso é um fenómeno que está a acontecer, de não praticarmos o 'click bait', não procurarmos os 'clicks', não trabalharmos apenas em função da quantidade. Isso é muito importante e as administrações deveriam perceber que não pode ser assim, embora isso possa prejudicar o negócio", disse.

No entanto, Fernando Esteves admitiu que hoje em dia tal não é fácil.

"Atualmente, com o esvaziamento das redações, com as dificuldades económicas que se instalaram na comunicação social, as redações esvaziaram-se, de memória, de qualidade, estão muito mais curtas, as pessoas têm muitas notícias para escrever durante o dia, e, portanto, não têm tempo para verificar a informação como deveriam verificar. Uma pessoa que faz 20 notícias por dia, 15, 10, não tem capacidade, não tem tempo, para fazer informação de qualidade", lamentou, partilhando que no Polígrafo são feitos "quatro conteúdos por dia, por vezes mais, mas também menos".

Mas, para o diretor editorial do primeiro jornal de 'fact-checking' português, é preciso ver mais além.

"Se não for assim, se não prejudicarmos um bocadinho o negócio agora, ele pode acabar daqui a dez anos, porque as pessoas deixam de comprar, deixam de aceder, porque deixam de acreditar. E a base da relação entre a indústria da comunicação e o público que a consome é a confiança. Quando essa confiança se esboroa acaba o negócio, e ninguém quer que isso aconteça.

Acessível online desde final do ano passado, o Polígrafo, embora seja "um jornal normal, mas com uma atividade um bocadinho diferente", dedica-se a "verificar as afirmações que são ditas no espaço público", por políticos, influenciadores e dos movimentos das 'fake news'.

 

Joana Ramos Simões (texto) e Hugo Fragata (vídeo)