Dois criadores de teatro procuram a verdade e a mentira para as porem em palco

Lisboa, 08 out 2019 (Lusa) - Dezassete adolescentes participaram hoje, em Lisboa, numa oficina sobre 'fake news', organizada pelos criadores Miguel Fragata e Inês Barahona, e cuja reflexão servirá para um espectáculo de teatro a estrear-se em março.

"Fake aka mentira" é o título da oficina, conduzida pelo ex-jornalista Frederico Batista e dirigida a alunos do ensino secundário, que inaugurou a "Fake Week", uma semana de reflexão coordenada por aqueles dois criadores no Teatro Nacional D. Maria II, envolvendo os cidadãos, e com um programa que inclui ainda sessões de cinema e conferências.

Na oficina, que será repetida diariamente até domingo, um grupo de adolescentes é convidado a falar sobre desinformação, mentira, manipulação.

A primeira sessão teve adolescentes com 16 e 17 anos, que estudam no Colégio Alemão, e que contaram que é pelas plataformas digitais, incluindo redes sociais, que têm mais contacto com informação, que estão habituados a lidar com a mentira - "as pequenas mentiras são inevitáveis", disse um aluno - e foram postos à prova na identificação de conteúdos falsos.

Frederico Batista apresentou-lhes casos verídicos envolvendo propagação de informações falsas, como o chamado "caso Dreyfus", em França, no final do século XIX, a cimeira das Lajes em 2003 que desencadeou a invasão do Iraque com base numa informação falsa, ou a própria interpretação do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da designação "fake news".

O ex-jornalista distribuiu ainda notícias verdadeiras e falsas que os participantes tiveram de identificar como tal, e montou um "noticiário estragado", numa adaptação do jogo do "telefone avariado", de partilha de uma informação por via oral por vários intermediários.

Um dos exemplos apresentados era a suposta (e inventada) notícia da morte do músico Moby, por ter tomado a vacina do tétano. Uma aluna disse que era mentira, porque nunca tinha lido essa 'fofoca' nos 'sites' que habitualmente consulta, enquanto outro aluno considerou que podia ser verdadeira, porque tinha ouvido falar de uma polémica sobre vacinação.

As experiências realizadas nesta oficina permitiram perceber que, apesar do domínio do digital, a informação e a desinformação são áreas do conhecimento que estes adolescentes ainda não dominam, afirmou à agência Lusa Miguel Fragata, no final da oficina.

"Acho que eles saíram com uma outra consciência para se lidar com este fenómeno. É muito interessante a forma como se dispõem a pensar sobre isto", disse.

À Lusa, Inês Barahona sublinhou que "a geração que está nesta fase da adolescência pode ser sujeita a este tipo de desinformação muito mais facilmente, porque é uma geração que não procura informação", recebe-a de forma passiva.

Onde está a verdade e a mentira, perguntam os dois criadores, numa semana de reflexão em que se sentem "caixa de ressonância" para trabalhar este tema, com o objetivo de escrever e montar a peça de teatro "Fake", que vão estrear naquele teatro nacional, em março de 2020.

"Fake", que terá uma componente visual em parceria com o realizador Tiago Guedes, "vai partir das notícias falsas e vai elaborar sobre a questão da verdade e da mentira, e dessa fronteira ténue que é muito particular no espaço do teatro", disse Miguel Fragata.

"Também nos questionamos se o teatro não é, agora que a informação começa a ser de certa forma um campo de ficção, o lugar o repositório da verdade", sublinhou.

O programa "Fake Week", que se estende até domingo, incluirá ainda várias sessões de um 'workshop' de criação intitulado "Engana-me que eu gosto", o ciclo de cinema "Falar verdade a mentir" e "falsas conferências, verdadeiras conversas" sobre jornalismo, política, filosofia, justiça e ciência.

Apenas no dia 12, sábado, haverá "Crime, disse ela", uma "sessão de análise de micro expressões e deteção de mentira", com as atrizes Beatriz Batarda, Carla Galvão, Isabel Abreu e Teresa Madruga a interpretarem testemunhos de uma mulher suspeita de ter cometido um crime.

 

Sílvia Borges Silva