Fenómeno é “oportunidade para os media de referência” – Mafalda Anjos

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Lisboa, 20 fev 2019 (Lusa) - A 'publisher' do grupo Trust in News, Mafalda Anjos, considerou que as 'fake news' são uma ameaça para o jornalismo e a democracia, mas também "uma oportunidade para os media de referência e de qualidade".

"Eu acho que as 'fake news' são, de facto, um perigo para o jornalismo. Esse é um debate importante que é preciso ser feito, mas são sobretudo uma enorme ameaça para a democracia", afirmou, em entrevista à Lusa, Mafalda Anjos, que também é diretora da revista Visão.

"Acho que é preciso perceber que as 'fake news' não são, na verdade, um fenómeno novo. Esta ideia de se criar uma mentira acerca de alguém com intuito próprio, com o objetivo de condicionar a opinião pública a favor do movimento ou a favor do determinada orientação política, é uma coisa que tem vindo a ocorrer ao longo dos tempos", no entanto, "a verdade é que agora a facilidade com que isto é feito e a velocidade de disseminação que as novas tecnologias trazem é enorme", considerou.

"E por isso, o perigo é muito maior. A situação é conhecida de toda a gente. O público conhece bem os efeitos potenciais das 'fake news'" e, assim, "há aqui, de alguma forma, uma oportunidade para os media de referência e para os media de qualidade", apontou.

"Porque, na verdade, é isso que nos distingue, os media de referência, os órgãos de comunicação social que conseguem garantir os princípios básicos do jornalismo, o código deontológico, a ética jornalística e (...) que conseguem passar a mensagem de que o jornalismo com 'fake news', com mentiras, com desinformação, não entra, esses têm aqui algum espaço", sublinhou a jornalista.

Mafalda Anjos defendeu, assim, que é "preciso apoiar estes media de referência que fazem este trabalho", o qual é "essencial à democracia".

Portanto, "por um lado apresenta um perigo, é preciso que os media de referência não sejam permeáveis e que os órgãos de comunicação social não sejam permeáveis às 'fake news'. Por outro lado, pode ser uma oportunidade de se promoverem como entidades que são garantes do que é o rigor, a isenção, a independência", frisou Mafalda Anjos.

Questionada sobre se houve alteração de procedimentos nas redações, Mafalda Anjos disse que há "um perigo grande para alguns órgãos de comunicação social, não só em Portugal, mas no mundo inteiro", para os media "que lutam neste território do 'breaking news', no território do clique, da quantidade mais do que da qualidade. Aí existiu alguma voragem para, de repente, se começar a publicar tudo sem grandes critérios, sem grande verificação", mas esta é uma área por onde a Visão nunca enveredou.

"Portanto, não temos propriamente de emendar a mão. Agora, erros todos cometemos. Eu acho que todos nós, nos órgãos comunicação social, estamos alerta para a facilidade com que isto acontece. Vimos grandes órgãos de comunicação social de referência, até mesmo internacionais, cometer erros e a citar notícias erradas e citar fontes que não estavam corretas e que eram verdadeiras 'fake news", prosseguiu.

Por isso, "é evidente que é preciso, hoje em dia, por causa deste fenómeno, estarmos todos muito mais alerta, fazermos todos não 'double checking' [verificação dupla], mas 'triple checking' [tripla] da informação, verificar todas as fontes, ter uma cautela acrescida, com tudo o que sejam fontes digitais", defendeu.

Ou seja, "é um voltar às bases do jornalismo. Na verdade, isto não é nada de novo, é um voltar às bases do que devem ser os princípios deontológicos e éticos da profissão de jornalista", apontou.

Questionada sobre se deveria haver fiscalização nesta área, a 'publisher' considerou que o termo tem "uma conotação histórica [em Portugal] até bastante negativa", fazendo lembrar o "lápis azul" da censura.

"Isso é uma coisa assustadora, a ideia de uma entidade externa a fiscalizar os media é algo que, obviamente, nos assusta, mas eu diria que há uma coisa essencial, que é a autofiscalização, a autorregulação, olharmos para dentro, criarmos os nossos próprios mecanismos internos de garantia de que estas coisas não acontecem, termos hierarquias a olhar para as histórias e a fazer essa verificação e, depois, uma coisa fundamental: estas plataformas gigantes tecnológicas, as disseminadoras de 'fake news', fazerem o seu trabalho", disse.

Mafalda Anjos especificou estar "a pensar no Facebook, na Google, que não só disseminam, como obviamente ganham muito dinheiro ao colocar publicidade e vender publicidade nestes 'sites' de 'fake news'. Essas [plataformas] sim, têm obviamente de impedir a disseminação quando as fontes das histórias são conhecidíssimos 'sites'" de notícias falseadas, mais do que identificadas como tal, apontou.

"Este trabalho de fiscalização é essencial que seja feito nestas plataformas gigantes digitais (...). O assustador é isto: uma notícia de 'fake news' é muito gulosa. Elas são feitas exatamente assim para serem precisamente gulosas, terem um 'engagement' [envolvimento] muito grande", acrescentou.

Relativamente ao fenómeno em Portugal, Mafalda Anjos considerou que "não é uma coisa de uma dimensão assustadora", o que não acontece em termos internacionais.

"Mas, acho que não é um fenómeno sério nos órgãos de comunicação social de referência. Se falarmos em media em sentido lato, e incluirmos aí as redes sociais como Facebook, como a Google, como Twitter, aí sim, há disseminação de 'fake news', de 'sites' internacionais, de 'sites' muitas vezes alojados lá fora", afirmou.

Entre os media em Portugal, "não creio que isso seja, de facto, uma situação preocupante que nos deva amedrontar. Acho que nos deve fazer pensar, porque uma história errada dada é demais, não se admite nenhuma. Mas acho que não é uma situação grave", prosseguiu.

"Agora, no que toca aos media em geral, acho que há duas coisas em conjunto que explicam o fenómeno: por um lado é facílima a disseminação e, depois, por outro lado, é o lucro, também ele fácil. E em qualquer área de negócio, quando existe lucro fácil, e já agora de fácil acesso, é garantido que alguém vai ali aproveitar aquele filão", constatou.

As 'fake news' irão durar enquanto os gigantes tecnológicos não começarem a filtrar "seriamente e a fazerem o seu trabalho". Por outro lado, classificou de "chave fundamental" a educação.

"Faz falta em Portugal uma campanha e acho que esta missão da Lusa, este debate que estão a lançar, é muito importante e relevante. Faz falta uma campanha pela literacia digital, pela cidadania digital. Acho que as pessoas não se sabem comportar nas redes sociais, não se sabem comportar 'online'", apontou.

"Estes meios evoluíram todos muito depressa. Isto é tudo ainda muito novo para as pessoas e a verdade é que as pessoas não conseguem ainda muito bem perceber que a fonte de uma história é muito relevante", destacou

Mafalda Anjos alertou, ainda, para "o fenómeno das fotografias e dos vídeos fabricados", denominadas de 'deep fake news' [imagens e vídeos manipulados], o que considerou "muito assustador".

Este "é um aspeto importante, porque as pessoas tendem a olhar para uma imagem" ou um vídeo e assumem como verdadeiro.

"Hoje em dia é tão fácil fazer isso" através do computador e, "por isso, é mesmo preciso que as pessoas mantenham um espírito permanentemente crítico, um espírito de alerta permanente em que estão sempre a tentar perceber" se as imagens que veem ou vídeos fazem sentido e aprender a perceber que a fonte das mesmas é importante, salientou.

 

Alexandra Luís (texto), Hugo Fragata (vídeo) e Andreia Catarino (edição vídeo)