Jornalismo sob ameaça porque público não percebe seu papel – diretor JN

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Porto, 30 jan 2019 (Lusa) - O diretor do Jornal de Notícias (JN), Domingos de Andrade, considera que a maior ameaça que se coloca ao jornalismo é a incompreensão dos públicos em relação ao seu papel enquanto mediador e escrutinador dos demais poderes.

Numa altura em que o jornalismo se confronta com vários polos de desinformação e perante a urgência a que o digital obriga, "a maior ameaça é essa: a dada altura, os leitores não perceberem o exercício do jornalismo, do jornalista, que é um exercício de mediação, mas é sobretudo um exercício de escrutínio dos diversos poderes".

"Também esse papel de mediação e de escrutínio é muito desvalorizado pela sociedade. Estamos a entrar num caminho que ainda não sabemos para onde é que vai e é nestes períodos de alguma indecisão, de perda de referências, que se insinuam os populismos, os extremismos, e que ameaçam as bases dos nossos Estados, das nossas sociedades democráticas", afirmou Domingos de Andrade, em declarações à Lusa, num trabalho preparatório sobre 'fake news', tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Para o diretor do JN, "quando os leitores dizem 'eu não quero ter um mediador que me dá as notícias', na verdade os leitores, telespetadores, ouvintes, [estão a ser] mediados por algoritmos".

"Essa é uma grande ameaça que não conseguimos ainda saber como enfrentar. Os algoritmos é que escolhem aquilo que nós queremos ver com base nos gostos e são eles que estão, de algum modo, a substituir aqui o papel mediador dos jornalistas. Tenho um pensamento positivo sobre isto. Eu creio que, de algum modo, as sociedades tenderão a olhar novamente para a credibilidade do papel do que é o exercício do jornalista", declarou Domingos de Andrade.

Para o responsável da publicação da Global Notícias, os jornalistas, que partilham responsabilidades na propagação das chamadas notícias falsas, têm de fazer "uma espécie de 'back to basics' e perceberem que têm de ser absolutamente rigorosos naquilo que fazem, que o exercício do contraditório é para ser exercido permanentemente, que a mistura entre factos e opinião acarreta perigos enormes, que muitas vezes a emergência do instante faz perder o pé naquilo que são as fundações no exercício do jornalismo".

"Há também aqui muita responsabilidade nossa, enquanto jornalistas. E a responsabilidade de não termos sabido contemporizar o que são as redes sociais com o exercício do rigor a que estamos permanentemente obrigados", disse Domingos de Andrade.

Com o reconhecimento de que as redações têm hoje menos jornalistas do que no passado e que o setor continua a atravessar uma "grave crise" perante reduções "drásticas" de leitores e de meios, o diretor do JN questiona se este "novo mundo faz substituir o antigo": "Se nós, fruto da pressão a que estamos sujeitos, devemos abdicar daquilo que são os princípios orientadores do nosso oficio, da nossa missão de escrutinador e de mediador. Se devemos suavizar aquilo que são as nossas regras correndo atrás do que é muitas vezes o que aparece nas redes sociais".

"Fizemos muitas vezes isso no passado, continuamos a fazer, hoje com mais cautela, hoje mais atentos, percebendo o perigo que isso representa, mas propagando muitas vezes notícias falsas por falta do que é absolutamente essencial no exercício da profissão que é o 'fact-checking'. O que temos a que estar atentos na nossa profissão, mesmo com prejuízos de não ser os primeiros a dar, é não ceder um milímetro que seja ao cumprimento das regras da nossa profissão", declarou Domingos de Andrade.

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

 

Tiago Dias (texto),  André Sá (vídeo) e Inês Araújo (edição de vídeo)