Jornalista moçambicano alerta para maior propagação em países com menos transparência

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Maputo, 15 fev 2019 (Lusa) - O presidente do grupo de comunicação social moçambicano Mediacoop, Fernando Lima, alertou que as notícias falsificadas, também popularizadas pelo termo inglês 'fake news', propagam-se com mais facilidade em países em que a transparência não é prioridade.

"Em sociedades fechadas, em que a transparência não é palavra de ordem, o rumor e o boato circulam com muito mais facilidade do que em sociedades abertas, democráticas, em que existe boa informação e é possível, em poucos minutos, desmontar esse tipo de notícias falsas", afirmou.

Moçambique "tem registado notáveis progressos", mas "ainda não é uma sociedade totalmente transparente" e é por isso que "as 'fake news' fazem o seu caminho", referiu Fernando Lima à Lusa, relatando a sua experiência pessoal, nomeadamente à frente do semanário Savana.

"Claro que há 'fake news', há cada vez mais" e quem as produz tem noção clara de que "há vantagens que podem ser obtidas", sobretudo no meio político, onde as discussões "são mais assertivas em termos de adversários e de assassinato de caráter", disse Fernando Lima.

Para o jornalista há "dois tipos de veículos" primordiais para propagar notícias falsificadas: "pessoas que ingenuamente as difundem e grupos de pressão que estão interessados em criar determinado impacto e passar uma determinada mensagem".

Fernando Lima adiantou que já está habituado à divulgação pelas redes sociais de histórias falsas que, "dia sim, dia não", o implicam "numa conspiração na Renamo [oposição]", "com um novo candidato da Frelimo [partido no poder]" ou na mira de "um novo atentado que estão a preparar" contra ele ou outros jornalistas.

"Já estou habituado a este tipo de situação, assim como as nossas publicações que, habitualmente, são associadas às mais incríveis fantasias", sublinhou.

O abuso, por outro lado, é demonstrador de que "as publicações são assertivas, (...) incomodam determinados grupo poderosos em Moçambique e, portanto, têm de estar sempre a ser alvo desses ataques", acrescentou.

Face ao cenário global, "é difícil falar de soluções" para acabar com as notícias falsificadas, reconheceu, defendendo que "devem criar-se antídotos".

"Hoje, qualquer redação minimamente séria tem os seus filtros para não cair no descrédito e andar a publicar histórias sem pés, nem cabeça", como uma remodelação governamental ou emissão de mandados de captura de uma ou outra figura, temas recorrentes na atualidade política moçambicana, frisou.

Trata-se de "uma série de questões que, em princípio, fariam uma boa manchete, mas que depois de uma investigação mínima se chega à conclusão que são notícias falsas", sublinhou Fernando Lima.

Para este profissional, a questão vai além do filtro da informação com base em critérios jornalísticos e assume também contornos forenses.

"Estamos a entrar num domínio em que se forjam documentos com caráter oficial", pelo que são necessárias aptidões acrescidas para que um meio de comunicação evite cair em descrédito, concluiu.

Luís Fonseca (texto, vídeo e edição)