“Modelo de negócio do jornalismo foi quase destruído” – Walter Dean

Lisboa, 21 fev 2019 (Lusa) -- O jornalismo deixou de ter modelo de negócio, nos Estados Unidos e noutros sítios, analisa o jornalista e professor americano Walter Dean, que será um dos oradores na conferência que a Lusa organiza hoje sobre o tema da desinformação.

"O problema é que o modelo de negócio do jornalismo foi quase destruído, porque cederam o nosso conteúdo sem que fosse preciso pagar por ele. Deixámos de ter modelo de negócio. Nos Estados Unidos, metade das posições editoriais, em jornais, desapareceram. 1300 cidades americanas deixaram de ter jornais", assinala Walter Dean, que, após décadas de jornalismo televisivo, nomeadamente na CBS, se tem dedicado a formar jornalistas em todo o mundo, incluindo em Portugal (anualmente, como professor convidado da Universidade Nova de Lisboa).

"Portanto, temos este vazio. Uma ausência de cobertura jornalística. Esse vazio está a ser preenchido por publicidade, opinião, propaganda, 'fake news'. Como devemos reagir e tentar preencher esse vazio? Em primeiro lugar, através da consciencialização do público, as pessoas têm de prestar atenção, ser cautelosas, fazer perguntas sobre o que veem, leem e ouvem", sustenta.

"Depois, podemos tentar reforçar o jornalismo, apoiando o seu modelo de negócio ou criando outras formas de jornalismo, sobre as quais podemos nunca ter pensado, para prover informação verificada aos cidadãos-decisores", acrescenta o atual coordenador do curso de verão de Jornalismo da Universidade de Missouri.

"O problema é que, numa altura em que as redações estão a ser reduzidas, os jornalistas são chamados a policiar a infoesfera, com dezenas e centenas de milhares de fontes de informação, sobre as quais é suposto descobrir, captar, corrigir e isso não é um processo fácil, porque, para as corrigirmos, precisamos de histórias, de encontrar os factos, de pesar os factos, de falar com diferentes lados da questão, e isso não é coisa que se faça em dez ou quinze minutos", assevera.

"Portanto, numa altura em que o jornalismo tradicional fica mais limitado, somos chamados não só a policiar governos, comunidades, os nossos concidadãos, não só policiar, mas prestar-lhes atenção e observá-los, como também nos pedem para observarmos tudo o que passa na internet. Sinceramente, não estamos bem equipados para fazer isso", alerta.

A regulação pode ser parte da resposta, mas não resolverá todas as questões. "O problema da regulação é saber por quem será feita. Por exemplo, seria fácil pedir aos distribuidores de informação, Facebook, Google, Twitter e outros, que o fizessem, mas queremos mesmo isso? Eles não têm qualquer vontade de o fazer, eles são engenheiros, não são jornalistas nem cientistas sociais, tenderiam a mecanizar a regulação, criando algoritmos para o fazer, porque é assim que pensam, são engenheiros. Quem queremos que sejam os reguladores? Portanto, quando falamos de regulação, a minha primeira pergunta é, podemos aprovar regulação, mas quem a implementa? Esse é o desafio difícil", reflete.

"O segundo problema é como protegemos o direito de todos os indivíduos a dizerem coisas estúpidas ou simplesmente aquilo em que acreditam? Não queremos regular a liberdade de expressão, mas suspeito que queiramos ter algum controlo ou influência no montante de discurso de propaganda, livre e não verificado, que entra no nosso sistema informativo. É uma questão muito difícil", reconhece.

Walter Dean não tem dúvidas de que "as grandes plataformas deviam pagar pelo que distribuem", mas também é preciso exigir responsabilidades aos utilizadores-consumidores.

"Mais do que transformar os Googles e Facebooks do mundo nos reguladores 'de facto' e se exigíssemos mais dos indivíduos quando publicam na internet? Não sei, estou a começar a pensar nisto... Claro que as pessoas ficariam chocadas, porque podem dizer qualquer coisa na internet. E deviam poder fazê-lo? Não sei", questiona.

Ligado a importantes projetos de jornalismo, o Pew Center for Civic Journalism, o Project for Excellence in Journalism e o Committee of Concerned Journalists, Walter Dean considera que "a maior ameaça das 'fake news' é para o público", porque "o público usa informação verificada -- tradicionalmente prestada pelo jornalismo -- para tomar decisões sobre pessoas e assuntos".

Contando que "10% das pessoas nos EUA partilham 'fake news' regularmente" e defendendo que "isso deve ser permitido, em defesa da liberdade de expressão", Dean não esconde que "o problema é quando as 'fake news' começam a poluir a infoesfera que os restantes cidadãos usam para tentar obter informação para tomar decisões".

Portanto, "a questão é como proteger os direitos dos 10% de pessoas que querem falar sobre o que quiserem e aquilo em que acreditam e, ao mesmo tempo, proteger o direito das pessoas a terem informação verificada, 'boa' informação", resume.

Por outro lado, Dean alerta para a pouca atenção que tem sido dada ao recurso à desinformação por parte de Estados, lembrando que investigações recentes levadas a cabo nos Estados Unidos sugerem que a eleição de Donald Trump foi influenciada por "ataques informativos russos contra os sistemas de informação americanos".

Realçando que esses ataques são "muito sofisticados e brilhantes mesmo", o professor aconselha que se preste "mais atenção", porque ninguém está livre de ser o próximo alvo.

"Toda a gente, em todo o mundo, precisa de ter noção de que alguns governos fazem da informação uma arma, usam as 'fake news' como arma, para tentar fabricar um resultado numa eleição ou danificar e minar a credibilidade de grandes instituições, governos e outras instituições civis, como órgãos de informação, com o objetivo de criar instabilidade", defende.

 

Sofia Branco