Notícias falsificadas tornam mais valiosas as verdadeiras – Tom Bowker

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Maputo, 15 fev 2019 (Lusa) - o jornalista britânico Tom Bowker, que trabalha em Moçambique, considerou que as notícias falsificadas, ou 'fake news', fazem com que o trabalho de um jornalista seja mais importante e valioso, com clientes dispostos a pagar pela verdade.

"Neste contexto, o jornalista é ainda mais importante e quem quer noticias verdadeiras está pronto para pagar pelos nossos serviços. Sabe que é uma fonte credível, que tem uma história de credibilidade", disse o diretor do portal Zitamar News, que publica informação em inglês sobre Moçambique.

Tom reside há quatro anos em Maputo e pensa que parte da culpa pela proliferação de notícias falsificadas em Moçambique reside na atuação dos "media formais, que deixam bastante espaço para as 'fake news' existirem".

"Os órgãos de informação estatais seguem, mais ou menos, a linha do Governo. Qualquer coisa que o Presidente da República faz, tem de se reportar, enquanto o público quer mais jornalismo investigativo e há muito pouco disso em Moçambique", descreveu.

A informação falsa ou enganadora acaba por preencher esta lacuna e Tom Bowker sublinhou que seriam bem-vindas iniciativas de verificação de factos em Moçambique.

Esse é o objetivo de uma das funcionalidades do portal Zitamar, um boletim diário com um resumo das notícias em destaque nos meios de comunicação social em Moçambique.

"A maior parte dos nossos leitores vive fora de Moçambique e não conhece o contexto dos media no país. Achámos que era útil dar os destaques do dia e um pouco de análise sobre se esses destaques são verdadeiros ou não", justificou.

Este é um trabalho que poderá exigir esforço redobrado este ano.

"Acho que neste ano de eleições, provavelmente [o volume de 'fake news'] vai crescer", com intervenientes "de um lado e outro da política moçambicana" a usarem as ferramentas ao dispor, admitiu.

Moçambique tem eleições gerais (presidência, parlamento e províncias) marcadas para 15 de outubro.

Por um lado, os meios tradicionais "têm dificuldade em fazer a cobertura do país", que é extenso e implica "uma logística cara, deixando espaço para notícias mentirosas", referiu.

Do outro lado, "o que há de novo é a facilidade em como pessoas se podem tornar 'fake journalists' ou comentadores, através das redes sociais".

O Facebook é, provavelmente, "o lugar onde se encontram mais 'fake news' em Moçambique", destacou Tom Bowker, sublinhando que a rede tem "um papel bastante importante no discurso público" no país.

"É claramente fácil para qualquer pessoa utilizar [o Facebook] e chegar a um público bastante grande em Moçambique", acrescentou, alertando que o WhatsApp é outra peça chave no jogo da desinformação.

"Pelo menos no Facebook há um nome associado àquela notícia, mas uma mensagem no WhatsApp pode circular sem ninguém saber quem foi o autor", assinalou.

Tom é membro de vários grupos de WhatsApp em Moçambique, que recebem "mensagens muito estúpidas", sendo difícil esperar que alguém acredite nelas, mas, "na verdade, deve valer a pena", olhando ao engenho de quem as concebe e distribui.

Luís Fonseca (texto, vídeo e edição)