‘Fake news’ obriga leitor a fazer o trabalho do jornalista de verificar factos – investigador cabo-verdiano

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Praia, 06 fev 2019 (Lusa) -- O investigador cabo-verdiano Silvino Évora considerou hoje que a proliferação de notícias falsas, conhecidas por 'fake news', está a estender ao público a responsabilidade do jornalista de verificar os factos, o que é "um sinal preocupante" para o futuro do jornalismo.

O professor universitário, autor de vários livros sobe comunicação social, considera que a passagem da responsabilidade da comunicação social para o público "significa que o jornalista perdeu credibilidade".

"Se o público tem de auferir o trabalho que o jornalista vai fazendo, porque pode ser levado por um caminho que não é a verdade, é um sinal preocupante para o futuro do jornalismo", adiantou em entrevista à agência Lusa sobre a realidade das 'fake news', a propósito da conferência que a agência e a Efe vão realizar no dia 21 de fevereiro, em Lisboa, sobre "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

O docente recordou que as notícias falsas sempre existiram ao longo dos tempos, sobretudo na economia em que "funcionaram muito bem", ao lançar rumores sobre negócios com a perspetiva de inflacionar o próprio preço do que é transacionado ou para descredibilizar os produtos e baixar o seu preço.

"O que veio mudar de uma forma considerável foi o fenómeno das redes sociais, a internet, que democratizou ou alastrou o acesso à possibilidade de influenciar múltiplas pessoas ao mesmo tempo", declarou.

As 'fake news', acrescentou, é, pois, um fenómeno antigo "que se reveste de uma nova roupagem".

Para Silvino Évora, não são muitos os instrumentos que os cidadãos têm para se proteger, "a não ser a tentativa de tentar entender a origem e, sobretudo, as fontes e os meios que divulgam tais notícias".

"A roupagem atual de 'fake news' é tentar, sobretudo, fazer uma composição da mensagem que em tudo se assemelha a uma notícia feita por um jornalista, com cabeça, tronco e membros".

Com vista a apurar se se trata de 'fake news', o consumidor de informação deve "identificar os sites informativos credíveis e os não credíveis, que é um meio caminho para fazer uma triagem de uma notícia", adiantou.

Segundo Silvino Évora, assiste-se hoje a informações jornalísticas em paralelo com outras informações com outros fins e que procuram revestir-se das características das informações noticiosas.

Isto "acaba por criar uma confusão na mente das pessoas que acabam por cair numa descrença, sobretudo em relação ao que é produzido por via digital".

"Fica-se sem saber muito bem o que é verdade e o que não é verdade e quando assim é abre-se o caminho para o descrédito do jornalismo a sério, o profissional, que acaba, por esta via, por sofrer um duro golpe. Ainda temos de estudar a forma de inverter este caminho", disse.

Segundo Silvino Évora, o jornalismo conta ainda com três âncoras que são os meios tradicionais: rádio, televisão e imprensa.

Com a internet, disse, "qualquer um passa a ser comunicador, mas não é qualquer um que faz uma estação de televisão ou radiofónica ou publica um jornal.

Silvino Évora recordou uma recente 'fake news' que atribuiu a vários políticos cabo-verdianos algumas das maiores fortunas africanas, incluindo os chefes de Estado e do Governo.

"A mensagem é esta: os políticos estão a acumular mais riqueza do que deviam ter de uma forma natural. Mas sabemos que a política não é uma fábrica de produção de riqueza pessoal para quem lá está, pois quem quer enriquecer vai constituir empresas e desenvolver negócios, não vai para a política. Por aí entendi que alguma coisa estava errada", mas "muitas pessoas acharam que era verdade".

Contra este caminho, Silvino Évora defende um primeiro passo que é também aquele que é o mais difícil de trilhar -- duvidar da notícia.

"Esse é um caminho fatal para o jornalismo", referiu, recordando que "o que marcou sempre o jornalismo foi a sua credibilidade e a confiança que transmitiam os órgãos de comunicação social".

As notícias falsas comummente conhecidas por 'fake news', desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas eleições europeias do final de maio.

 

Sandra Moutinho (texto) e Ricardino Pedro (vídeo)