Observatório junta especialistas para “caçar” desinformação na Europa

epa07553727 The European flag at the European Parliament in Brussels, Belgium, 07 May  2019. The European Union parliamentary elections will take place from 23 - 26 May 2019.  EPA/STEPHANIE LECOCQ

Atenas, 12 out 2019 (Lusa) -- Criado pela Comissão Europeia há um ano, o Observatório Social de Análise Mediática contra a Desinformação (SOMA, sigla em inglês) agrega atualmente 40 organizações de 20 países europeus, que se juntaram para "caçar" desinformação na União Europeia (UE).

"A ideia é ter todas estas organizações a trabalhar juntas para partilhar práticas, conhecimento e recursos técnicos", disse à agência Lusa o coordenador do SOMA, Nikos Sarris.

Em vigor desde o final do ano passado, o observatório SOMA agrega cerca de 40 membros (entre centros de investigação, universidades, estruturas governamentais e meios de comunicação social especializados em 'fact checking') de quase 20 países da UE.

Sediado em Atenas, na Grécia, o observatório só se tornou operacional neste verão, após a criação de infraestruturas tecnológicas para os parceiros, tendo sido, por isso, construída uma plataforma 'online' colaborativa onde estes membros podem dar o seu contributo e fazer as suas análises.

O projeto visa, então, uma espécie de "caça" conjunta à desinformação, já que prevê que nestas investigações coletivas se sigam os passos da "identificação, organização e verificação", explicou Nikos Sarris.

"Quando queremos começar uma investigação, criamos o que eu chamo de coleção, à qual atribuo um tema e uma equipa de colaboradores para trabalhar comigo. Todos juntos, começamos a adicionar conteúdos, que provêm tanto dos 'feeds' das redes sociais como de páginas na internet ou diretamente de ficheiros, e organizamo-los", indicou.

Depois, no último passo, da verificação, "as pessoas começam a analisar a informação recolhida", através de ferramentas tecnológicas criadas pelo Centro Tecnológico de Atenas (ATC, sigla em inglês), um parceiro do observatório que Nikos Sarris também coordena.

Estas ferramentas de inteligência artificial, que partem de várias métricas e algoritmos, "não assumem logo uma conclusão [ou seja, não indicam se se está perante desinformação]", realçou o técnico.

Isto porque "acreditamos que a decisão deve ser tomada pelos especialistas, como os verificadores de factos ['fact checkers'] ou os jornalistas", referiu o especialista, notando que "o resultado da investigação fica sempre dependente da observação humana".

"A ideia é facultar a infraestrutura tecnológica e algum apoio operacional para ajudar ao trabalho conjunto destas organizações", acrescentou.

O SOMA foi criado pela Comissão Europeia e é financiado pelos fundos comunitários do Horizonte 2020, destinados à investigação.

O combate à desinformação e às 'fake news' tem estado, inclusive, no topo da agenda do executivo comunitário e do Conselho da UE, razão pela qual foi criado no final do ano passado um Plano de Ação Conjunto, que já levou à criação de um sistema de alerta rápido para sinalizar campanhas de desinformação em tempo real e de um instrumento de autorregulação para combater as notícias falsas 'online', um código de conduta subscrito voluntariamente por grandes plataformas digitais, como Google, Facebook, Twitter, Mozilla e Microsoft.

Questionado sobre a razão pela qual o observatório foi criado, Nikos Sarris sublinhou que "o problema é óbvio".

"Os canais para propagação de notícias falsas são imensos, hoje em dia. As mentiras já existiam nas nossas sociedades, mas atualmente os canais através dos quais são espalhadas -- as redes sociais e a internet -- fazem com que a informação se propague muito rapidamente e isso afeta tantas facetas da nossa vida, havendo ainda uma grande oportunidade de negócio para o lado mau da informação e para os atores maliciosos", adiantou Nikos Sarris à Lusa.

O responsável defendeu, por isso, a existência de "abordagens colaborativas" para esta problemática, já que "para uma organização, só por si, torna-se difícil enfrentar este tipo de questões".

 

Ana Matos Neves