Pacheco Pereira pede menos complacência com ignorância tecnológica

José Pacheco Pereira intervém na abertura da Conferência

Lisboa, 21 fev 2019 (Lusa) - O historiador José Pacheco Pereira criticou hoje a "complacência e a tolerância" face à ignorância tecnológica alimentada pelas redes sociais, sublinhando que "a rapidez é inimiga do pensamento" e favorece o empobrecimento social.

"Há nas redes sociais um ascenso de uma nova forma de ignorância. Acho espantosa a complacência e a tolerância que as pessoas têm em relação à ignorância se vier enfardada de tecnologia", criticou Pacheco Pereira na conferência "Combate às 'fake news' -- uma questão democrática", organizada em Lisboa pelas agências noticiosas portuguesa Lusa e espanhola EFE.

Para o historiador, o problema não é só das 'fake news' (desinformação), mas também da falência das escolas e das famílias como mecanismo de socialização que favorecem uma "ignorância agressiva".

Considerou que "há um vasto conjunto de saberes e de conhecimentos" que não são atualmente valorizados, salientando que a rapidez é inimiga do pensamento e é preciso "lutar contra isso".

Pacheco Pereira foi também crítico em relação aos jornalistas pela sua "absurda e ignorante" reverência à novidade, à rapidez e à juventude e frisou que "não se pode ser complacente com pessoas que não leem livros", lamentando "o fim do pensamento lento, da leitura e da reflexão" e o "empobrecimento social" que se vai "pagar caro".

Na sua análise sobre as 'fake news' destacou que estas não são um fenómeno tecnológico e sim o "resultado de mudanças sociais" e, por isso, é para a sociedade que é preciso olhar em primeiro lugar: para a solidão urbana, para o isolamento na multidão, perda de relações sociais com conteúdo afetivo, diminuição dos contactos reais substituídos por contactos virtuais, incremento da solidão apoiada na tecnologia e agravamento dos mecanismos de diferenciação social.

"Não são as tecnologias que mudam a sociedade é a sociedade que muda as tecnologias", vincou.

Pacheco Pereira falou também sobre a associação ao tribalismo, muito comum nas redes sociais, em que os utilizadores só leem aquilo de que gostam e acreditam cegamente nas pessoas de quem gostam, comprometendo "o valor da verdade" e provocando "uma crise profunda dos valores"

Exemplo desta "dissolução da verdade" são os 'tweets' do Presidente norte-americano, Donald Trump

Outro dos fatores que contribuem para a propagação do fenómeno é o enfraquecimento das instituições.

A "crise das mediações", segundo o historiador, atinge o jornalismo e todos os saberes qualificados e institucionais e é também um fator de dissolução da democracia.

Notou também a "enorme" pressão das redes sociais para a democracia direta, ressalvando que "uma democracia sem mediação não é democracia".

 

Raquel Rio (texto) e Tiago Petinga (foto)