‘Fake News’ são “mais um desafio” do que um perigo

icon-play

O diretor-adjunto do Público, David Pontes, disse, em declarações à Lusa, que as 'fake news' representam "mais um desafio" do que uma ameaça para o jornalismo e considerou a "educação para os media" como "absolutamente necessária".

A Lusa está a desenvolver um trabalho preparatório sobre "fake news", tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Questionado sobre se as 'fake news' são uma ameaça para os media, David Pontes afirmou que "representam mais um desafio, uma oportunidade do que só uma ameaça" para o setor.

"São uma ameaça quando contribuem para um clima e para um ecossistema noticioso em que as pessoas não conseguem distinguir aquilo que é jornalismo daquilo que é construção narrativa inventada, mas são uma verdadeira oportunidade porque nos faz obviamente distinguir, na confusão que está criada em termos de redes sociais (...), claramente daquilo que devem ser os valores do jornalismo e reafirmá-los, explicando às pessoas que estamos muito para lá da muita confusão que elas veem na 'net'", acrescentou.

"Por isso, eu tenho olhado mais como uma grande oportunidade das 'fake news', de nós reafirmarmos esses princípios e de mostrarmos às pessoas que o jornalismo tem profissionais credenciados que têm processos que são escrutinados e que não se pode de maneira nenhuma confundir com confusão de informação que elas encontram muitas vezes nas redes", apontou o jornalista.

"Na tradução literal do inglês significa "notícias falsas", embora esta definição, para os jornalistas, seja uma contradição: se for mentira ou falsificada (outro significado de 'fake'), não é notícia. Em alternativa, pode também dizer-se "informações falsificadas", conceito que remete para manipulação.

Sobre se a proliferação de 'fake news' levou a mudanças na redação do jornal, David Pontes disse que não.

"Reforçou aquilo que são os nossos mecanismos de vigilância e pôs-nos mais atentos para percebermos de alguma forma aquilo que vem acontecendo nas redes e a maneira como as pessoas formam a sua opinião, mas não alterou nada de especial a nossa maneira de produzir jornalismo (...). É mais um alerta, mais um aviso para o mundo em que estamos", salientou o diretor-adjunto.

"Nós não produzimos 'fake news', nós produzimos informação. As 'fake news', quanto muito, são nossos adversários na procura da verdade e na procura de encontrarmos boa informação. O Público nunca teve como prioridade dar primeiro, sempre tivemos como prioridade dar bem e dar melhor", sublinhou.

David Pontes defendeu a edução para os media como uma aposta clara.

"Acho que essa deve ser uma grande aposta porque nós, às vezes, já não temos bem noção, mas há muita gente, nomeadamente de faixas etárias mais novas, que não têm bem a noção de quais são os processos do jornalismo", apontou.

Isto porque os mais novos cresceram "num ambiente em que os moderadores da informação têm menos papel e, por isso, é bom reafirmar (...) esse tipo de princípios. Julgo que essa educação é absolutamente necessária: é ajudar as pessoas a encontrar e a saber distinguir entre aquilo que é jornalismo, aquilo que é informação genericamente e aquilo que não é absolutamente nada, que é só mentiras e falsidades", sublinhou.

"As pessoas precisam de ter algumas ferramentas e algumas delas são, como nós sabemos na profissão, muito simples: basta às vezes um 'search' [pesquisa] no Google para perceber que aquilo que acabamos de ler não corresponde a absolutamente nada", afirmou.

"A vigilância, a proibição, é sempre um caminho perigoso, eu teria sempre algum cuidado" com a forma como "iremos entabular", disse, considerando que é "melhor educar do que proibir".

Sobre como seria esta educação, David Pontes considerou que tal deve começar pelas escolas.

Questionado de que forma, o responsável afirmou: "Claramente falando para aqueles que ainda estão às vezes a encontrar o seu caminho nesse ecossistema, explicando e desmontando no nosso dia a dia do jornalismo o que aqui é informação e aquilo que é simplesmente ruído. E isso ajudará gente que já não vai entrar com o processo da escola (...). Apostar numa geração nova no meio escolar para conseguir explicar às pessoas o melhor possível, quais são os passos, as dificuldades e as limitações do jornalismo e de que maneira nenhuma isso pode ser confundido com 'fake news'".

O tema das 'fake news' já foi objeto de discussão interna no Público, segundo o diretor-adjunto, que considerou que a expressão não deve ser utilizada quando se fala de mau jornalismo ou de informações incorretas.

Porque "isso não tem nada a ver com 'fake news'", reiterou.

"Parto do princípio que estamos a falar sempre da construção de realidades ou de distorção de realidades, visando objetivos comerciais ou políticos bem determinados. Eu julgo que essas são obviamente aquelas que nós devemos temer mais e aquelas que devemos trabalhar e distinguir isso claramente do que é má informação, do que é mau jornalismo. É um fenómeno novo, acho que tem muito a ver com as redes sociais e com a maneira como as pessoas consomem notícias, às vezes quase sem as ler", considerou.

Questionado sobre quais as razões que levam as 'fake news' a ganharem terreno aos media, David Pontes disse que tal tem a ver "com a queda (...) e com a diminuição da importância que nós jornalistas e outros mediadores tínhamos como 'gatekeepers', como gente que tomava conta desse fluxo e o certificava e as pessoas passaram a achar que tudo aquilo que vê corresponde a uma qualquer realidade".

"Factos são factos, temos direito à nossa opinião, mas não temos direito aos nossos factos próprios", reiterou.

"Acho que isto, conjugado com um ambiente razoavelmente ligeiro das redes sociais, com um momento complicado que as nossas sociedades ocidentais vivem de ataque às elites e - quer queiramos quer não, no que diz respeito ao domínio da informação, os jornalistas são uma elite e têm estado debaixo de fogo e nem sempre pelas melhores razões, embora algumas sejam boas e há críticas que todos nós devemos absorver - tudo isto um bocadinho misturado criou aquilo que leva a que nós olhemos para as 'fake news' como uma ameaça à democracia e aos processos eleitorais", prosseguiu.

"Por trás disso é preciso perceber que para [as 'fake news'] serem mesmo uma ameaça é preciso haver organizações articuladas, é preciso, havendo vontades de governos, como tem sido o russo, de criarem mecanismos e processos que são demasiado intrincados às vezes para um cidadão normal desmontar (...)", mas cabe aos media, "como é sempre" a sua obrigação, "tentar apurar a verdade e tentar desmontar" o enredo.

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

Alexandra Luís (texto), Hugo Fragata (vídeo) e Fátima Guerreiro (edição de vídeo)