“Fake news” são oportunidade para o jornalismo se distinguir pela qualidade

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Praia, 06 fev 2019 (Lusa) -- O reitor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde acredita que o fenómeno das 'fake news' é um desafio e uma oportunidade para os órgãos de comunicação social que queiram distinguir-se pelo caráter autêntico, verídico e quantitativo.

"A maioria da informação que temos ao nosso dispor de forma gratuita é de baixa qualidade. Daí, os jornais pagos, os serviços de informação pagos, poderem-se distinguir", disse Wlodzimierz Szymaniak à Lusa, referindo-se à realidade das 'fake news', a propósito da conferência que a agência e a Efe vão realizar no dia 21 de fevereiro, em Lisboa, sobre "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Em declarações à agência Lusa, afirmou que os boatos sempre existiram e que as "fake news" também não são um fenómeno novo.

O que veio mudar o cenário foi a internet: "As redes sociais oferecem uma facilidade enorme para a divulgação de mensagens que cada pessoa pode colocar no seu portal", disse.

Em relação ao impacto deste fenómeno em Cabo Verde, o reitor da Universidade Jean Piaget -- que leciona vários cursos na área da comunicação -- referiu que neste país falta "uma maior cultura de consumo dos media, de literacia mediática".

"O consumo dos media de qualidade é relativamente baixo e, em consequência, as notícias e os conteúdos de baixa qualidade, em que podemos incluir as 'fake news', podem ganhar maior proporção", adiantou.

O investigador recordou alguns casos de "fake news" em Cabo Verde, alguns com proporções significativas, como as que relacionavam o desaparecimento de crianças na cidade da Praia com a comunidade chinesa no país.

O caso assumiu tais proporções que a polícia teve de "proteger um chinês que foi acusado de raptar as crianças", sublinhou.

Também o massacre do destacamento militar de Monte Tchota, ocorrido em 2016, e que resultou na morte de oito pessoas por um soldado, foi inicialmente atribuído a outros protagonistas.

"Havia boatos que era a guerra do crime organizado contra o Estado e as forças de ordem do Estado e esta informação chegou a ser veiculada pelos órgãos de comunicação social que não se deram ao trabalho de verificar a situação", afirmou.

No final, como se veio a demonstrar, "era um crime que não estava de maneira nenhuma relacionado com o crime organizado".

Outras 'fake news' existiram, embora facilmente identificadas como "brincadeiras de mau gosto", tal como as fotografias eróticas atribuídas à líder do principal partido da oposição em Cabo Verde (PAICV), disse.

Wlodzimierz Szymaniak revela-se "bastante otimista" e acredita na "capacidade de discernimento das pessoas".

"Temos de saber que a liberdade também tem os seus pontos fracos e que não há liberdade sem responsabilidade e uma parte da responsabilidade recai no consumidor e não só no produtor dos conteúdos mediáticos", adiantou.

O reitor recomenda, neste caso, "uma melhor educação. Também uma melhor preparação para o consumo dos media poderá ajudar".

"De qualquer maneira, em Cabo Verde, e não só, há um progresso. Não me lembro de muitos casos de 'fake news' que tivessem muito impacto na tomada de decisões das pessoas. Fala-se muito sobre proteção de dados, recolha de dados das redes sociais que são depois utilizados para 'marketing' político, mas não sabemos qual foi o impacto real deste trabalho", adiantou.

O investigador acredita que o fenómeno é, para o jornalismo e os jornalistas, "um desafio muito grande, mas também uma oportunidade".

"Quando surgiram as redes sociais, há certa de 15 anos, fizeram-se profecias. Um novo meio de comunicação não provoca a morte de um meio anterior, mas obriga o meio anterior a adquirir maior qualidade".

E acrescentou: "Quando apareceu a televisão ouviram-se vozes a dizer que o cinema ia morrer. Não morreu, adaptou-se à produção da televisão e ofereceu opções melhores capazes para seduzir as pessoas para irem ao cinema".

"O mesmo fenómeno podemos observar nas redes sociais. As pessoas passam muito tempo com as redes sociais, mas não significa que deixem de consumir outros meios, mas os outros meios têm de responder com o devido nível para responder às expectativas", concluiu.

As notícias falsas, comummente conhecidas por 'fake news', desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio.

 

Sandra Moutinho (texto) e Ricardino Pedro (vídeo)