‘Fake News’: A forma “pós-moderna” dos antigos rumores

Nas últimas décadas, a comunicação de massas originou um fluxo de informação sem precedentes. A distorção dos factos expandiu-se devido à quantidade de agentes envolvidos e ao crescente número de consumidores. E a falsa informação, a propaganda, a realidade distorcida, a desinformação dirigida ou as 'fake news', o termo que se vulgarizou, constituem nos tempos atuais uma real ameaça à democracia e ao direito à informação.

Há poucas décadas, a questão da manipulação mediática (onde deverá ser incluída a emergência das “fake news”) era designada por "desinformação". Diversos estudiosos do tema, desde especialistas em media, jornalistas ou sociólogos de vários países envolveram-se num intenso debate para tentar descodificar este fenómeno – que registou um enorme incremento após o referendo sobre o “Brexit” em junho de 2016 e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos cinco meses depois –, mesmo que não possa ser circunscrito a estes dois acontecimentos.

No campo político, o termo tem sido usado para atingir a credibilidade de adversários, e quando gigantes da Internet, em particular o Facebook e o Google, garantem adotar as medidas necessárias para não serem identificados como os propagadores de notícias falsas.

No entanto, não foi a Internet quem inventou as “mentiras”. Diversos investigadores sugerem que as mentiras mais perigosas não são as que circulam de forma anónima nas designadas redes sociais, devendo ser antes destacadas as falsas notícias emanadas pelos governos das nações com a cumplicidade de media institucionais e difundidas, sob variadas formas, desde que existem sociedades organizadas.

Com a propagação dos regimes parlamentares e democráticos a partir do século XIX, admitia-se que as informações falsas desapareceriam face à instauração do princípio da liberdade de expressão e da lucidez dos cidadãos, com capacidade para distinguir o verdadeiro do falso.

Mas esta nova via de comunicação, veloz e à escala global reativou problemas que estavam latentes, em particular pelas suas características técnicas, com um crescente volume de informações, a descentralização da internet ou o anonimato dos autores. E o desafio parece de novo consistir na necessidade de discernir no imediato o falso e estabelecer a diferença com o verdadeiro, uma tarefa que se arrisca a produzir intermináveis debates.

Relatórios e estudos recentes têm-se referido a elevadas taxas de analfabetismo funcional (não saber trabalhar ou utilizar as informações que se lêem) entre a população europeia, a uma perceção totalmente distorcida daquilo que a rodeia, à incapacidade em distinguir na Internet o verdadeiro do falso. O que a torna particularmente permeável às "fake news".

Uma pesquisa da universidade Suor Orsola de Nápoles concluiu que quatro em cinco italianos não conseguem distinguir um perfil falso no Facebook ou no Twitter; e três cidadãos em cada cinco, quando confrontados com uma notícia, não conseguem entender se é verdadeira ou falsa. Os especialistas alertaram para o surgimento de uma geração que não escreve, que não lê e que, provavelmente, não entende.

A "cultura da distração", o entretenimento, a descontextualização, a utilização de diversas plataformas das redes sociais como objetivo político, também permitiram a formação de um clima que não promove sentimentos positivos, antes tem promovido a atracão dos seus frequentadores para partidos que propagam o ódio, a desilusão, o medo e o rancor, no qual os "outros" são os responsáveis por tudo.

Jaron Lanier, ensaísta e investigador informático norte-americano, tem alertado para o surgimento, em todo o mundo, de políticos que exaltam a identidade étnica e a xenofobia. "Na Suécia, na Itália, na Polónia, na Hungria, nos EUA, está-se tornando numa característica da política, e é típica desta era de dependência de massas, destes dispositivos que alteram o nosso comportamento e que tornam predominantes as emoções negativas, face às positivas", considerou em depoimento recente.

Um estudo da universidade de Cambridge conduzido em oito países europeus e nos EUA, coordenado pelo investigador Hugo Leal e divulgado em novembro de 2018 confirma esta tendência, ao assinalar o aumento das teorias conspirativas (conspiracy theories), em particular em torno da imigração.

As conclusões indicam que cerca de um terço das pessoas em países como o Reino Unido e França pensam que os seus governos "escondem a verdade" sobre a imigração, e que a votação no "Brexit" e em Donald Trump "está associada a um vasto leque de crenças conspirativas - da negação de dados científicos a conspirações generalizadas promovidas pelos imigrantes muçulmanos".

Mentiras, meias-verdades e rumores

O fenómeno Facebook (anunciado em 2004 e atualmente com cerca de mil milhões de utilizadores ativos) também implicou a quebra da barreira até então existente entre vida privada e vida pública. Desde então, têm-se multiplicado os casos da divulgação de vídeos ou fotos comprometedoras, sobretudo entre os mais jovens, quando por motivos diversos se expõe a vida íntima de outros e outras na Internet, com consequências por vezes devastadoras, incluindo o suicídio.

E tem sido nestas "comunidades virtuais", em tempos de “capitalismo numérico” e de “pós-política”, que têm surgido profusamente as designadas “fake news” destinadas a surpreender, mas que, entre as afirmações fantasiosa, também contêm elementos que as tornam plausíveis.

Um exemplo recente: na sequência do atentado islamita de 11 de dezembro de 2018 em Estrasburgo, foi sugerido num "chat" de Internet que o governo francês organizou este atentado para terminar com os protestos dos coletes amarelos e mesmo que a nível oficial tenha sido emitido um apelo para o fim da contestação social, pelo menos enquanto prosseguisse a operação policial. E proliferam muitos outros exemplos, mais ou menos recentes.

Antes deste acontecimento, o Presidente francês Emmanuel Macron já tinha proposto à sua maioria parlamentar em 03 de janeiro de 2018 a aprovação de uma lei contra a difusão de "falsas informações" em período eleitoral, adotada em novembro pelo parlamento apesar de duas rejeições prévias no Senado e que implicaram algumas alterações no texto. Os críticos referiram-se a uma tentativa de "controlo da informação".

A iniciativa sugere que a vitória dos candidatos, dos partidos ou das causas"anti-sistema", como a eleição de Donald Trump, o "Brexit", o referendo catalão, ou o Movimento 5 Estrelas em Itália se deveram, mesmo marginalmente, à disseminação de falsas notícias por regimes autoritários, cabendo aos regimes democráticas contrariá-las através de legislação apropriada.

Mas, insista-se, a génese deste fenómeno não surgiu na atualidade, podendo considerar-se que as "fake news" afinal sempre estiveram instaladas no universo da informação e da propaganda, com os meios disponíveis no seu tempo. As "fake news" podem, assim, ser entendidas como uma forma "pós-moderna" de designar as “mentiras, meias-verdades e rumores” que circulam em diversos media, "redes sociais" e outras "ferramentas".

A mentira como mobilização nas guerras

Com o início do século XX e das guerras mundiais, a difusão de rumores ou de falsas informações, fenómenos ancestrais, acentuaram-se com os novos instrumentos disponíveis – jornais de grande difusão, depois o cinema, a rádio, e da decisiva televisão entre as duas guerras e após 1945 – com o objetivo de cumprir uma função simbólica para legitimar o esforço de guerra e a solidariedade coletiva face a um inimigo comum. À semelhança das “fake news” de hoje, mobilizavam a comunidade no ódio contra o adversário.

Estas mentiras, meias-verdades, insultos ou meias-calúnias, dirigidas a um coletivo (um país, um povo, uma etnia) ou a alguém em particular, destruíram reputações e vidas, muito antes da expansão da Internet. E continuam a provocá-lo.

Nenhum dos Estados envolvidos em conflitos escapou a este fenómeno. Na I Guerra Mundial, na Guerra civil de Espanha, na II Guerra Mundial, na Guerra do Vietname, na Guerra soviética no Afeganistão, na I Guerra do Golfo, nas Guerras jugoslavas da década de 1990, nas invasões militares do Afeganistão e Iraque, ou mais recentemente na Guerra da Síria, do Iémen, no Sinai ou na região do Sahel, para além de outros acontecimentos que poderiam comprometer a sua credibilidade, todos os Estados, todos os poderes, democráticos ou autoritários, utilizaram e utilizam métodos de intoxicação mediática, internos ou vindos do exterior, em defesa dos seus interesses e da sua credibilidade.

Como nos ensina a História, esta realidade questiona diretamente a função dos media, em particular num segmento muito delicado, a sua relação com as mentiras dos Estados. E os exemplos são infinitos: quantas guerras, quantas invasões, quanta repressão, quantas vítimas foram motivadas por estas falsas notícias?

Este tema remete para a questão da propaganda, sobretudo em situações de conflito. Pode admitir-se que as"necessidades" da guerra  justifiquem a mentira. Mas o mais grave, em termos de mentiras e falsas notícias, será quando têm por objetivo uma guerra de agressão. E a História europeia também está repleta destes exemplos.

A História e a atualidade indicam que a liberdade de expressão e a verdade talvez estejam mais ameaçadas por dirigentes de diversos Estados, em comparação com as mentiras que circulam na Internet e respetivas plataformas.

E que, no conjunto, também contaminaram as redações dos jornais, rádios, ou televisões onde se instalou a omissão, a autocensura, o sensacionalismo, as relações de promiscuidade com poderes instituídos, ou a crescente influência das agências de comunicação e relações públicas e a pressão da publicidade.

O silêncio dos Estados

O atual fluxo de informação, quase incontrolável, permitiu a distorção dos factos devido à enorme quantidade de atores envolvidos, e de um crescente número de consumidores que "querem e precisam de acreditar" num campo extensível a todos os segmentos mediáticos, da política ao desporto, em particular o futebol.

A falsa informação, a propaganda, a distorção da realidade, a desinformação dirigida, em suma as “fake news” na sua versão “pós-moderna”, colocam uma verdadeira ameaça à democracia e ao direito dos cidadãos a serem informados com verdade.

Na sequência do referendo no Reino Unido sobre o "Brexit", da eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, e do referendo constitucional italiano – apesar de não poder ser circunscrito a estes três episódios, todos ocorridos em 2016 –, o fenómeno acentuou-se e tem concentrado a atenção de especialistas em media, jornalistas, sociólogos, com a divulgação de importantes contribuições para o debate.

Questionou-se a credibilidade que deve ser hoje atribuída pelos media aos poderes instituídos. Tem-se alertado que as mentiras dos Estados e os silêncios cúmplices contribuem para os rumores de "conspirações" e alimentam as "fake news". E sugere-se que o antídoto seria garantir uma absoluta liberdade de expressão, à exceção da difamação e do insulto.

Na arena política, o termo "fake news" também tem sido utilizado para minar a credibilidade de opositores, enquanto os gigantes da internet (Google, Facebook) dizem estar a adotar as medidas necessárias para contrariar este fenómeno e evitarem o epíteto de "centros da falsidade".

Neste contexto, há quem beneficie com a divulgação de notícias incorretas, os que insistem na distinção entre "fake news" e "sátira", os que defendem o "jornalismo à moda antiga" acusando a predominância das redes sociais, e mesmo os que questionam o sistema de informação no seu conjunto. Em paralelo, diversos media, incluindo os "media alternativos" estão a impor mecanismos de pesquisa e controlo e a promover cursos de educação em torno do fenómeno mediático.

Em paralelo, e apesar das polémicas em seu torno, não deverão ser ignorados os contributos de Julian Assange e do Wikileaks, de Edward Snowden, ou mais recentemente as investigações dos "Panama Papers" ou as revelações de Christopher Wylie sobre as atividades da Cambridge Analytica na desmistificação do fenómeno das "fake news".

Continuam a alertar estudiosos e especialistas: que os mecanismos instalados pelos grandes conglomerados, destinados a “vigiar a credibilidade noticiosa” na Internet, não sejam também utilizados para considerarem como “desinformação” os artigos que lhes desagradam.

Caso os media demonstrem abertura ao debate e à crítica, aceitem abordar os temas que incomodam, evitem diabolizar os opositores à linha oficial, poderá admitir-se que as "fake news”"deixarão de ter espaço de manobra. Mas ainda se depara um largo caminho a percorrer.

Lusa