Felisbela Lopes apela a pacto transversal contra desinformação

icon-play

A professora da Universidade do Minho Felisbela Lopes defendeu, em declarações à Lusa, um pacto contra a desinformação, transversal a várias áreas, que passe, por exemplo, pelo jornalismo e pela educação.

"Eu acho que devíamos ter um pacto contra as 'fake news' extensível a vários campos. O campo jornalístico é um deles, mas temos outros. Temos, por exemplo, o campo da educação. Temos rapidamente de assumir a literacia para os media como uma prioridade", afirmou a académica, em declarações à Lusa, num trabalho preparatório sobre "fake news", tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

Para a também pró-reitora da Universidade do Minho, da mesma forma que se aprende matemática ou a própria língua materna do país na escola "é também prioritário dotar as crianças para lerem melhor a informação que circula em diversas plataformas".

"Não poderemos apenas apontar o dedo aos jornalistas e responsabilizá-los por esta desconstrução das notícias falsas. Também a classe política. É evidente que a classe política que usa as 'fake news' não vai estar interessada nesta desconstrução, mas a outra classe política afetada por este fenómeno deve denunciar, deve erguer esta bandeira e deve colocar esta discussão em permanência no espaço público", afirmou Felisbela Lopes.

Para a académica, as "notícias falsas" representam "uma enorme ameaça" quer ao jornalismo quer às sociedades democráticas, gerando uma preocupação redobrada "em momentos mais sensíveis como são os momentos de eleições" que vão ocorrer este ano.

"Os jornalistas têm regras e uma das regras principais é a procura da verdade, o confronto de todas as partes envolvidas no sentido de dotar os cidadãos do maior número de informação possível para fazer as suas escolhas", sendo, portanto, a divulgação e propagação de desinformação contrária aos princípios fundamentais do jornalismo.

Para Felisbela Lopes, "os processos circulares de informação" fazem com que as 'fake news' entrem no circuito noticioso: "A estrutura circular da informação, com o fenómeno das 'fake news', também vai começando a absorver boatos e os boatos também têm tratamento jornalístico porque à força de se repetir tanto boato começa a fazer parte da discussão no espaço público."

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

Tiago Dias (texto) e André Sá (vídeo)