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Livro Branco sobre IA recomenda reforço do Serviço Público de Media na literacia

epa11077118 A person walks in front of a screen displaying artificial intelligence (AI) generated artwork by Turkish-American media artist Refik Anadol inside the Congress Center on the eve of the 54th annual meeting of the World Economic Forum (WEF) in Davos, Switzerland, 14 January 2024. The meeting brings together entrepreneurs, scientists, corporate and political leaders in Davos under the topic 'Rebuilding Trust' from 15 to 19 January.  EPA/LAURENT GILLIERON

Lisboa, 15 dez 2025 (Lusa) - O Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo faz 10 recomendações estratégicas, entre as quais o reforço do Serviço Público dos Media na literacia mediática e a criação de um Observatório Nacional sobre IA e os media.

O Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo, que é hoje apresentado em Lisboa, é financiando pelo European Media and Information, sob a gestão da Fundação Calouste Gulbenkian e coordenado pela Nova FCSH.

Entre as recomendações consta o "reforçar o papel do Serviço Público de Media na literacia mediática e no combate à desinformação", desenvolvendo conteúdos regulares, multiplataforma e de acesso livre, incluindo formatos adaptados ao público infanto-juvenil, lê-se no documento.

Observatório Nacional sobre IA e jornalismo é uma das propostas

O Livro Branco recomenda ainda a criação de um Observatório Nacional sobre IA e jornalismo, "com a missão de produzir conhecimento, monitorizar a aplicação de IA no ecossistema informativo nacional, mapear riscos e oportunidades, apoiar processos de decisão e promover a literacia algorítmica da sociedade civil".

Refere ainda a necessidade de estabelecer um quadro nacional de recomendações para o uso de IA no setor, coordenado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e o estabelecimento de diretrizes editoriais e operacionais para a utilização de IA generativa no jornalismo "através do desenvolvimento e implementação de um Manual de Políticas de Boas Práticas de IA aplicável a todas as áreas das empresas de media".

Recomenda também a implementação de "normas obrigatórias de sinalização pública de conteúdos generativos, assegurando que operadores de media adotam procedimentos técnicos e editoriais de identificação visível, verificável e consistente" e a revisão do Código do Direito de Autor e dos Diretos Conexos, "incorporando os desafios colocados pela IA e alinhando o regime jurídico nacional com as orientações europeias e internacionais".

Entre as 10 recomendações constam ainda a criação de um programa de apoio à inovação em IA aplicada ao jornalismo, "articulando diferentes tipos de entidades parceiras e assegurando a disponibilidade de laboratórios de experimentação e capacitação distribuídos regionalmente", bem como "criar convocatória pela FCT (futura AI) para financiamento a projetos de investigação exploratórios em IA aplicada ao jornalismo português, com base em dados e necessidades do contexto nacional".

Criar um programa nacional de formação de competências (‘upskilling’ e ‘reskilling’) em inovação interdisciplinar para os media "desenvolvido em colaboração entre Cenjor, universidades, institutos politécnicos e empresas de media" e integrar competências em inteligência artificial nos cursos de jornalismo "através de um referencial nacional co-construído, que incorpore de forma transversal conteúdos sobre IA e tecnologias emergentes, acompanhados de formação certificada para docentes, promovendo uma abordagem interdisciplinar" são outras duas recomendações.

IA e portugueses: recolha de informação e transcrição

"A utilização de IA no jornalismo português é maioritariamente operacional e não intensiva, centrada em tarefas como pesquisa e recolha de informação (56,1%), tradução automática (41%) e transcrição (40%)", lê-se no Livro Branco, que faz 10 recomendações estratégicas.

O padrão do uso de IA nas redações "é predominantemente ocasional (28,1%) ou raro (25,4%), com apenas uma minoria a reportar uso diário (11,2%)", refere o documento, salientando que que os media 'online' concentram a maior regularidade de uso da tecnologia, com mais de metade dos jornalistas (57,6%) a afirmarem o uso diário e mais de um quinto (22,2%) o uso frequente.

Tal contrasta com a televisão, "que apresenta os níveis mais baixos" de uso de IA, em que 18% diz nunca usar IA e 15% a usar "apenas raramente".

Segundo o Livro Branco sobre a Inteligência Artificial no Jornalismo, "identificaram-se três perfis de uso": inexistente, pontual/individualizado (maioritário) e regular/orientado, com este último concentrado em grupos de media de maior dimensão.

"Emerge o 'paradoxo da eficiência': a IA encurta tempos em tarefas mecânicas, mas parte da poupança é absorvida por aprendizagem e validação. A qualidade só melhora quando o tempo libertado é reinvestido em edição, definição de ângulos e contextualização, situação que requer a medição de poupanças por tarefa e uma governação editorial robusta", lê-se no documento.

IA, uma ameaça e uma ajuda no combate à desinformação

Outro dos destaques é a ambivalência da IA: acelera a produção de desinformação através de media sintéticos e apoia a verificação através da triagem, análise de metadados e mecanismos de proveniência.

"Verificar é estruturalmente mais custoso do que gerar conteúdos falsos, pressionando rotinas de apuração e aumentando riscos reputacionais na ausência de validação formal", aponta o Livro Branco, referindo que "no contexto português, 64,4% dos/das profissionais afirmam que a IA terá impacto negativo ou muito negativo na disseminação de desinformação", com a imprensa a concentrar as avaliações mais negativas (50,5%)".

As redações tentam "mitigar estes riscos através de triagem forense, contenção autoral — que proíbe a geração automática de conteúdos — e rotulagem de materiais assistidos ou gerados por IA", mas "ainda assim, os incidentes reputacionais tornam-se particularmente prováveis quando existem fragilidades ou indefinições na cadeia de revisão editorial, como evidenciam os casos SAPO24 e “Pulsómetro”/CNN Portugal, em 2024".

No que diz respeito à ética, deontologia e responsabilidade editorial, "persistem lacunas generalizadas em dimensões fundamentais de governação", em que que mais de três quartos (80,4%) dos jornalistas "atestam a inexistência de cláusulas contratuais sobre IA, 64% reportam inexistência de código de conduta, 65,8% assinalam ausência de comissões de supervisão" e "67,5% documentam inexistência de formação obrigatória em IA".

Quase dois terços (63,4%) dizem "não existir protocolo de validação pré-publicação e apenas 15% reconhecem políticas claras de responsabilização por erros".

Estas fragilidades são "particularmente acentuadas em meios locais e regionais".

O Livro Branco e os dois estudos que o sustentam – Relatório de Diagnóstico e Análise Temática e Relatório de Contributos Participativos – resultam de uma colaboração interinstitucional que reuniu instituições académicas nacionais (Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Minho, Universidade Católica Portuguesa, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Universidade Europeia, Universidade da Beira Interior, Universidade de Coimbra) e duas universidades brasileiras (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

Alexandra Luís