Luísa Meireles defende especiais cuidados nas agências noticiosas

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A diretora de informação da Lusa considera que as agências noticiosas devem ter especiais cuidados perante as 'fake news', pela sua capacidade de difusão, e defendeu literacia para os media nas escolas como forma de debelar aquele fenómeno.

"Penso que as agências [de notícias], em particular, estão mais vulneráveis" relativamente às 'fake news' [notícias falsas] devido à capacidade de difusão de informação", considerou Luísa Meireles, no dia em que a Lusa arranca com um 'microsite' num trabalho preparatório sobre "fake news", tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às 'Fake News' - Uma questão democrática".

A ameaça das 'fake news' perante as agências de notícias "pode ser mais grave na medida em que a tarefa ou missão de uma agência de informação é difundir informação", explicou a diretora.

"Portanto, difunde-se para inúmeros clientes e, através deles, para inúmeras pessoas" e isso "pode ter uma influência que não se pode contar", prosseguiu Luísa Meireles, sublinhando que a informação divulgada pelas agências noticiosas expande-se "de uma maneira muito maior do que a dos outros órgãos".

Os principais clientes das agências de notícias são os outros meios de comunicação social.

"Por isso, acho que as agências têm que tratar a informação de uma forma mais rigorosa, ainda mais canónica, para garantir os seus padrões de rigor e credibilidade", sublinhou a diretora de informação.

"As agências - penso que neste aspeto deveremos ter especiais cuidados - e eu não sei se não recuperaria a frase de uma especialista, no caso uma mulher que é editora de 'fact checking' [verificação de factos] numa grande agência, que diz que não existe uma receita segura para lutar contra as 'fake news' sem ser o voltar ao básico. Ou seja, voltar às velhas regras do jornalismo do contraditório, do 'checkar' as informações" acrescentou Luísa Meireles.

Para a diretora de informação da agência de notícias portuguesa, as 'fake news' são "uma grande ameaça" que tem vindo a crescer e que ninguém sabe "até onde vai".

"Diria que fomos particularmente alertados, mais até de um ponto de vista político, a partir das eleições nos Estados Unidos, nomeadamente as eleições presidenciais em que ganhou Donald Trump e depois com o referendo do Brexit", disse.

"Em relação a este que nos toca mais de perto, até porque se refere à União Europeia, acharia interessante recordar as palavras de Christopher Wylie", que trabalhou na Cambridge Analytica, empresa que roubou os dados de 50 milhões de utilizadores do Facebook para fins políticos, que disse "com toda a certeza, publicamente, que se não tivesse havido a ação da Cambridge Analytica não teria havido Brexit, ou seja, não teria havido o sim ao Brexit", exemplificou a diretora.

"Isto está por provar, mas a verdade é que se de um ponto de vista político isto nos causa arrepios, porque manipular as pessoas de um ponto de vista político é algo que mexe profundamente com as nossas sociedades, mais ainda quando isso tem a ver com as pessoas, na sua capacidade de acreditar ou não na verdade ou na mentira", prosseguiu Luísa Meireles.

"Ou seja, o mundo é melhor ou pior se há maior número de pessoas que acreditam na mentira ou de pessoas que não conseguem acreditar na verdade? Portanto, a partir da altura em que se coloca a questão da desconfiança em termos políticos, em termos sociais ou em termos até de mero negócio, eu acho que as nossas sociedades estão política e democraticamente ameaçadas, porque acredito profundamente que sem uma informação livre, verdadeira e credível não pode haver democracia", argumentou.

Questionada se defende educação para os média, Luís Meireles disse que sim, porque se as 'fake news' podem afetar o jornalismo, no sentido em que se as pessoas passam a desconfiar dos media, deixam de acreditar neles e o negócio do próprio setor fica em causa.

"Penso que há dois planos: um plano é a literacia aplicada aos próprios jornalistas e ao próprio jornalismo", apontou.

Ou seja, "dar mais, dar instrumentos, dar meios ao jornalista, 'empoderá-los' [dar-lhes poder], se quisermos usar uma palavra nova, de novas técnicas ou meios, que estão à disposição de toda a gente para fazer o seu jornalismo, ter mais capacidade para verificar a informação que chega".

Por outro lado, continuou, "há também que atuar sobre o leitor, sobre as pessoas de um modo geral" e "acho que aí também seria inteligente ou seria importante fazer campanhas de literacia".

Luísa Meireles citou um estudo feito em Itália, que acredita não ser uma realidade portuguesa, que concluiu que três em cada cinco italianos não são capazes de distinguir um perfil falso de um perfil verdadeiro, bem como o que é falso e verdadeiro numa notícia.

"Portanto, se for possível também agir sobre as pessoas, particularmente nas escolas, que é onde as pessoas e onde os jovens começam a aprender, não só a ler, mas a ler jornais ou consultar a informação. Seja qual for a plataforma, penso que será útil para debelarmos este fenómeno", defendeu.

Questionada sobre porque as 'fake news' ganharam importância nos media, Luísa Meireles foi perentória: "As redes sociais".

Até porque, "sejamos rigorosos, 'fake news', notícias falsas, é uma contradição nos termos, porque se é falsa não é uma notícia", salientou.

Noticias falsas ou falseadas sempre houve, tal como as mentiras, "desde que o homem é homem, desde que houve comunicação", prosseguiu, salientando "que por serem mais apelativas é exatamente por isso que são mais difundidas".

Se anteriormente, "os meios para o fazer eram mais restritos, hoje a informação ultrapassa fronteiras das mais variadas maneiras, nomeadamente através das redes sociais", salientou, dando o exemplo do Facebook e até mesmo do WhatsApp, este último adquirido pela rede social em 2014.

Luísa Meireles apontou o facto de a informação enviada através do WhatsApp ser encriptada, nomeadamente imagens e vídeo, o que impossibilita a averiguação da sua veracidade, num mundo cada vez mais global.

"Acho que a eleição do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é um exemplo disso mesmo porque a propaganda e o 'marketing' político foi feito através das redes sociais, embora no caso em particular pelo WhatsApp porque é a ferramenta, digamos, das redes sociais mais utilizadas" naquele país.

"O mundo está em constante mudança, está em constante evolução" e as redes sociais são boas e más, por isso "acho que deve haver a maior vigilância e nós, jornalistas, estamos na primeira linha desse combate porque somos alvos e vítimas", apontou.

"Somos aqueles a quem é preciso convencer que uma notícia é falsa ou verdadeira ou é falsamente verdadeira, se me permitem o termo, e somos vítimas porque ao desconfiar das notícias, o leitor, aquele que nos lê, aquele que no fundo paga a informação deixa de confiar naquilo que é transmitido pelo jornalista", rematou Luísa Meireles.

Alexandra Luís (texto), Hugo Fragata (vídeo) e Andreia Catarino (edição de vídeo)