Novo tratado de Aix-en-Chapelle gera uma onda de notícias falsas em França

Paris, 21 jan 2019 (Lusa) - O tratado que a França e a Alemanha assinam esta terça-feira na cidade alemã de Aachen, junto à fronteira dos dois países, está a gerar uma onda de notícias falsas no lado francês.

Marine Le Pen afirmou nas redes sociais que o novo tratado menciona a partilha do lugar da França no Conselho de Segurança da ONU com a Alemanha e o regresso da Alsácia ao domínio alemão, tendo sido já desmentida pelas autoridades francesas.

O novo tratado de Aix-en-Chapelle que será assinado esta terça-feira pelo Presidente Emmanuel Macron e Angela Merkel e que está a gerar uma onda de notícias falsas em França, com Marine Le Pen e outros líderes da extrema-direita a afirmarem nas redes sociais medidas que não constam no documento já divulgado pelos respetivos ministérios dos Negócios Estrangeiros.

Num vídeo divulgado na rede social Twitter, Marine Le Pen acusa Emmanuel Macron de "traição". "Com esta disposição [que a França cederá o lugar à Alemanha] no Tratado de Aix-en-Chapelle, o Presidente francês decide retirar a França do nível das grandes potências para a transformar num país de segunda classe", defendeu a líder de extrema-direita num vídeo que já conta com mais de 150 mil visualizações.

O Eliseu, em comunicado enviado à Agência France Presse, desmentiu as acusações da extrema-direita, afirmando que a entrada da Alemanha para o Conselho de Segurança é uma prioridade, mas não haverá qualquer partilha do lugar. "Paris é favorável à entrada da Alemanha como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, mas a França não vai abandonar este órgão nem partilhar o seu assento", reforçou o gabinete do Presidente.

"Como é hábito, são pessoas que jogam com a ignorância dos outros e querem suscitar o medo. Sempre que utilizamos o medo das pessoas desta maneira, é algo que nem vale a pena tentar justificar. O que estamos a fazer é explicar o que é este Tratado e o que queremos, acima de tudo, é melhorar as relações entre os dois países", disse Christophe Arend, deputado do partido Republique en Marche e membro do grupo de amizade França-Alemanha na Assembleia francesa, em declarações à agência Lusa.

Christophe Arend esteve juntamente com outros especialistas nas relações franco-alemães numa conferência esta segunda-feira na Casa Heinrich Heine na Cidade Internacional Universitária de Paris, em conjunto com a Fundação Konrad Adenauer, para explicar este novo Tratado de Aix-en-Chappelle que vem reforçar o já existente Tratado do Eliseu que rege as relações entre os dois países desde 1963. Henri Ménudier, professor honorário da Universidade Paris 3, que conduziu o debate começou por também desmentir as afirmações de Le Pen à audiência, dizendo: "Isto é algo que está completamente fora de questão".

Juntamente com a deputada alemã Ursula Groden-Kranich, Christophe Arend explicou que paralelamente ao novo tratado intergovernamental que abrange disposições sobre assuntos europeus, paz, cultura, cooperação regional, ecologia e defesa, o Bundestag e a Assembleia Nacional vão criar através de um acordo interparlamentar uma câmara franco-alemã com 50 deputados de cada país para acompanhar a evolução e implementação de todas as disposições assinadas em Aix-en-Chapelle.

"Esta nova organização vai dar seguimento aos tratados entre a França e a Alemanha. Vamos trabalhar em posições comuns nos nossos interesses europeus e internacionais e acompanhar também a transposição das diretivas europeias nos dois países para termos um resultado homogéneo", afirmou o deputado.

Também presente no encontro, Sylvie Goulard, ex-ministra da Defesa e vice-governadora do Banco de França, lembrou que aprendeu o alemão desde nova devido à influência do Tratado do Eliseu e que isso lhe abriu uma nova cultura.

"O Tratado do Eliseu tirou-me de um determinismo mediterrâneo, já que cresci em Marselha. Há uma dimensão cultural em tudo isto e a possibilidade de mostrar aos dois lados uma nova cultura e uma nova forma de ver o Mundo", afirmou a também ex-deputada europeia, acrescentando que "não há outra parte do Mundo onde se tenha chegado ao nível de cooperação que existe entre a França e a Alemanha".

Já Henri Ménudier foi crítico em relação ao novo texto, especialmente nos detalhes das suas disposições. "Acho que o que está aqui é muito geral, não vejo grandes inovações. Vejo que há, por exemplo, uma nova disposição para um fundo cidadão para a geminação de cidades, mas não um valor certo. Eu, que já passei por várias celebrações do Tratado do Eliseu, desconfio das belas declarações. Espero que este seja mesmo um novo começo", disse o académico.

Catarina Falcão