Ameaça é maior para a democracia do que para os media

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O diretor-geral de Informação da Impresa considerou, em declarações à Lusa, que a principal ameaça das 'fake news' (notícias falsas) "é mais para a democracia do que para os media", salientando que este fenómeno "não vai acabar".

A Lusa está a desenvolver um trabalho preparatório sobre "fake news", tema de uma conferência, a realizar em 21 de fevereiro, em Lisboa, e organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o título "O Combate às Fake News - Uma questão democrática".

"Acho que a principal ameaça das 'fake news' é mais para democracia do que para os media", disse Ricardo Costa, apontando que o problema da comunicação social é outro.

"Quem consome informação e, sobretudo, através das redes sociais, porque hoje em dia as pessoas consomem informação de forma desagregada, leem coisas que não sabem exatamente quem as escreveu, sob que título é que foram publicadas, nem sequer onde é que as leram, (...)" coloca "todas as notícias ao mesmo nível", salientou o jornalista, e "esse é o principal problema".

E é por isso "que uma notícia falsa pode aparecer ao lado de outras notícias que são completamente verdadeiras, mas a principal ameaça, na minha opinião, é que obriga a aumentar o grau de qualidade do jornalismo porque cada vez que os jornalistas escrevem uma notícia errada - e isso está a acontecer muitas vezes - são acusados de estarem a fazer 'fake news', que são coisas completamente diferentes", disse.

Na tradução literal do inglês significa "notícias falsas", embora esta definição, para os jornalistas, seja uma contradição: se for mentira ou falsificada (outro significado de 'fake'), não é notícia. Em alternativa, pode também dizer-se "informações falsificadas", conceito que remete para manipulação.

"Os jornalistas não estão a fazer 'fake news', uma notícia errada é uma coisa que sempre existiu no jornalismo, só que hoje em dia eu acho que essa é a principal ameaça" e "nós devíamos ter a capacidade para que as notícias erradas tendessem para zero", prosseguiu Ricardo Costa.

O jornalista afasta a ideia de que as 'fake news' possam ter ganhado terreno devido à qualidade do jornalismo. Encontra mais razões nos algoritmos das redes sociais, que dão aos consumidores de informação todas as coisas que estão ligadas aos seus gostos, fechando-os num casulo.

"Isso é a coisa mais dramática que existe para o jornalismo, que é de repente podermos enfiar uma carapuça de que estamos exatamente ao mesmo nível. E qual é a melhor maneira de não estarmos ao mesmo nível? Não é só dizer que o trabalho é diferente, que nós 'checkamos' [verificamos] isto, (...), é ser consequente", disse.

"Não existe muitas vezes a noção de que hoje somos verificados quase em tempo real e que a tolerância para com o nosso erro hoje é muito mais baixa. Ou seja, uma manchete errada do Expresso há cinco ou dez anos era uma manchete errada, era mau, era grave, todos nós já passámos por situações dessas, mas uma manchete errada hoje é dramática porque leva logo com o carimbo de 'fake news' quando não tem nada a ver", apontou.

"'Fake news' é outra coisa, é alguém que se senta a uma mesa para fazer propositadamente uma notícia falsa com um objetivo", salientou.

Ricardo Costa, que adiantou que a Impresa não introduziu novos procedimentos na sequência das 'fake news', defendeu que os media têm de "ser capazes" de "não cometer erros", e quando estes acontecerem os mesmos devem ser assumidos e corrigidos "imediatamente".

Além disso, e tendo em conta que as redes sociais e a internet são fontes de informação, é importante "não aceitarmos coisas como verdadeiras que são 'fake news" e que muitas vezes podem estar a servir de fonte de informação", alertou.

"Tenho uma certeza, as 'fake news' não vão acabar, pelo contrário, vão aumentar. Porque as 'fake news' sempre existiram, sempre houve boatos", sublinhou, considerando que este fenómeno afeta o negócio dos media porque afeta a credibilidade.

"O jornalismo sempre foi impactado pela tecnologia (...), sempre impactou no sentido de diminuir o tempo, mas por outro lado aproximou-nos dos nossos leitores, espetadores e ouvintes, isso é bom", continuou o diretor-geral de informação do grupo Impresa.

"O grande desafio do jornalismo hoje é conseguir trabalhar em dois tempos: se há alguma coisa que aconteceu, nós temos que dizer isso, temos de ser capazes de ir contando o que está a acontecer, ao mesmo tempo temos de ser capazes de não embarcar em coisas que não estão confirmadas e termos a capacidade de trabalhar as coisas com tempo", rematou.

As 'fake news', comummente conhecidas por notícias falsas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o 'Brexit' no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

Alexandra Luís (texto), Hugo Fragata (vídeo) e André Ferrão (edição de vídeo)