Relatório: Desinformação adapta-se e amplia narrativas pró-Rússia
Lisboa, 05 mai 2026 (Lusa) - Um relatório do projeto ATAFIMI conclui que a desinformação com origem russa está a evoluir para um modelo mais "ágil e oportunista”, explorando acontecimentos internacionais, como o caso Epstein ou o conflito no Médio Oriente, para reforçar narrativas pró-Kremlin.
O documento, elaborado no âmbito do projeto ATAFIMI, analisou conteúdos difundidos entre janeiro e março de 2026 em vários países da Europa e América Latina, identificando uma tendência crescente de adaptação rápida a temas mediáticos globais para maximizar alcance e impacto.
De acordo com o relatório, eventos de grande visibilidade são “reaproveitados” como veículos narrativos.
O caso dos ficheiros Epstein, por exemplo, foi usado para promover teorias da conspiração que associam líderes ocidentais e figuras ucranianas a redes de poder ocultas, ao mesmo tempo que apresentam a Rússia como agente de justiça ou proteção.
A mesma lógica foi aplicada à escalada militar que envolve o Irão, Estados Unidos e Israel, onde conteúdos manipulados procuraram reforçar sentimentos antiocidentais e retratar Moscovo como aliado estratégico de Teerão, enquanto outras narrativas amplificavam desconfiança em relação a atores internacionais.
Outro elemento inovador identificado é a crescente utilização de Inteligência Artificial (IA) para produzir conteúdos satíricos ou de ridicularização, sobretudo dirigidos a figuras ucranianas.
Em vez de mensagens alarmistas, estas peças recorrem ao humor e à paródia para minar a credibilidade de adversários, marcando uma mudança de tom nas campanhas de desinformação.
O relatório destacou ainda a segmentação de audiências como uma das principais estratégias: conteúdos são adaptados a contextos nacionais específicos, explorando tensões políticas locais ou temas sensíveis.
Em Espanha, por exemplo, casos mediáticos internos foram instrumentalizados para alimentar narrativas polarizadoras, enquanto nos Balcãs surgiram conteúdos ligados a disputas históricas e identitárias.
Na América Latina, a análise apontou para uma dualidade estratégica: por um lado, a promoção de uma imagem positiva da Rússia como alternativa ao Ocidente e por outro, a disseminação de desinformação que associa a Ucrânia a corrupção, tráfico ilegal ou instabilidade global.
Entre as narrativas recorrentes, persistem acusações infundadas contra o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e alegações de desvio de armas ocidentais para mercados ilícitos, com impacto potencial na perceção pública do apoio internacional a Kiev.
Os investigadores sublinharam que a principal novidade não reside tanto no conteúdo das mensagens, mas na capacidade de se “encaixar” rapidamente em acontecimentos mediáticos globais, criando uma sensação de atualidade e verosimilhança.
O projeto ATAFIMI envolve organizações de verificação de factos de vários países e pretende mapear padrões de manipulação de informação transfronteiriça, num contexto de crescente sofisticação das campanhas digitais.
Paulo Resendes