Um negócio de “clicks”, manipulação e milhões que ameaça a democracia

"Fake news." Estas duas palavras em inglês, tradução para "notícias falsas", desinformação ou manipulação de informação, ganharam fama pela boca de Donald Trump. Por causa das eleições presidenciais nos Estados Unidos, ganhas, em 2016, pelo magnata norte-americano tornado famoso por um "reality show" na televisão.

Nos seus 'tweets', Trump criticava, de forma truculenta no Twitter, notícias, que considerava falsas, estivessem erradas ou por simplesmente lhe serem desfavoráveis. E daí o nome. Mas essas eleições ficaram conhecidas também pelas alegações de manipulação, por parte da Rússia de Vladimir Putin, para beneficiar Trump em vez da adversária, Hillary Clinton, derrotada nas eleições.

Um ano depois, em 2017, foi Jair Bolsonaro, o ex-militar de extrema-direita a ser associado a esta prática. E através das redes sociais, como o Whatsapp, em que um grupo de empresas foi implicado na divulgação de mensagens através de grupos desta aplicação de telefone e que custaram milhões -- 128 milhões de reais (28,5 milhões de euros).

E na Europa, o referendo no Reino Unido, que ditou a saída do país da União Europeia ('Brexit'), foram também noticiadas autênticas campanhas de desinformação, com recurso a notícias, fotografias e vídeos com informações erradas ou manipuladas.

Na mais recente edição da W eb Summit, a cimeira tecnológica, realizada em Lisboa, em 2018, a diretora do Centro de Estratégia Política Europeia da Comissão Europeia, Ann Mettler, subiu ao palco para expressar essa preocupação de Bruxelas. E dramatizar: "As 'fake news' são uma ameaça à democracia."

O bloco europeu quer fazer mais, culpando também as empresas tecnológicas pelo que está a acontecer e Ann Mettler pediu aos cidadãos que, perante as notícias que não o são, são falsas ou são manipulações, sejam cada vez mais "editores de si próprios" na Internet, no Facebook, no Twitter.

O ano de 2018 foi rico em "casos", a começar pelo escândalo da Cambridge Analytica, empresa que utilizou uma aplicação para recolher dados de milhares de utilizadores do Facebook, alegadamente para fins políticos e de manipulação, Resultado: o Reino Unido multou a empresa fundada por Mark Zuckerberg em 500 mil libras (560 mil euros).

Pensando já num ano de eleições europeias, que vão realizar-se em maio, soaram os alarmes na Europa e a Comissão e o Parlamento Europeu tomaram algumas iniciativas ainda em 2018.

Em 25 de outubro, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução em que apela aos Estados-membros para que adaptem as regras eleitorais às campanhas na internet ("on-line"), enquanto a comissão divulgou um código de boas práticas, que prevê um acordo com várias plataformas eletrónicas.

O esquema de funcionamento é linear, simples, mas perigoso por disseminar informações erradas ou manipuladas. E pode dar milhões em "clicks" nas páginas que também significam milhões de dólares a quem faz publicidade, seja nos "sites" ou nas redes sociais.

Se, no passado, a propaganda e os boatos demoravam a "espalhar", na era da internet, das redes sociais e da informação ao segundo, o fenómeno multiplicou por várias vezes a velocidade a que se difunde.

E multiplicam-se através das redes sociais, Twitter, Facebook ou por aplicações mais fechadas como o Whatsapp.

Há 'sites' dedicados a notícias falsas, sediados em países europeus, mas com o 'ip' (endereço) registado no Texas, por exemplo, de onde partiram centenas de notícias manipuladas. Em alguns casos, esses 'sites' têm uma aparência e siglas idênticas aos dos 'media' reais.

Nuno Simas