Viagem ao mundo clandestino dos “sites” em português associados às ‘fake news’

Lisboa, 20 fev 2019 (Lusa) -- Os 'sites' em Portugal associados às 'fake news', ou notícias falsificadas, onde temas como corrupção, 'jet set', desporto e política se cruzam, têm milhares de seguidores nas redes sociais, mas vivem numa espécie de clandestinidade.

Desde o final do ano passado que as 'fake news' ganharam projeção, com sua influência na eleição do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, de extrema-direita, antes com Donald Trump nos Estados Unidos, e através de uma série de reportagens no DN que foi revelado o pouco conhecido "mundo" das notícias falsificadas ou manipuladas no país.

O jornalista Paulo Pena, autor de um conjunto de reportagens sobre o tema no DN, traçou à Lusa as diferenças entre os 'sites' em Portugal e noutros países, inclusive europeus.

Uma das diferenças é a política, menos presente nas páginas portuguesas, embora os políticos também sejam o alvo.

"As 'fake news' políticas no resto da Europa lidam sobretudo com imigração, com refugiados, com a diferença, interculturalidade, o islamismo. Aqui em Portugal isso não faria qualquer sentido e, portanto, o tema muito mais presente neste tipo de 'sites' de desinformação é a corrupção, a forma como acusam políticos de terem roubado dinheiro", afirmou.

Foi o caso em torno de Assunção Esteves, antiga presidente da Assembleia da República, devido ao facto de, em 2012, ter optado pela reforma de juíza do Tribunal Constitucional, em vez do vencimento de deputada e segunda figura do Estado.

Algo que foi mencionado por um 'site' e que "era mentira", recordou Paulo Pena à Lusa.

Característica comum a estas páginas, em português, é, pois, o fraco peso da política nas publicações que fazem.

"Geralmente são histórias sobre celebridades, sobre o Cristiano Ronaldo, sobre futebol, sobre apresentadores de televisão. Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, onde a política era vendável só por si, chegou a ser um bom negócio. Aqui, política é residual, mas existe e o efeito destes 'sites' é precisamente provocar uma movimentação política", na descrição do jornalista.

"Aparentemente, o que consegue fazer com que as pessoas deem credibilidade é o facto de a política não ser constante", acrescentou.

A estratégia destes 'sites' passa, muitas vezes, por construir uma "notícia" a partir de uma informação verdadeira, mas, depois, é tirada uma conclusão excessiva ou fora do contexto.

Ou pura e simplesmente trata-se de uma informação manipulada, como aconteceu com o relógio de alegadamente 20 milhões de euros de Catarina Martins, disseminada por um 'site' e que, afinal, era uma experiência para mostrar como era fácil enganar as pessoas.

Mas outras foram a notícia, como a foto de José Sócrates e amigos, em que supostamente estaria a nova procuradora-geral da República, Lucília Gago, disseminada até por páginas de partidos no Facebook. Foi preciso os media "desmontarem" a trama, sendo fácil de perceber que a mulher identificada como procuradora era tudo menos parecida com Lucília Gago.

E o que diz, do outro lado da história, quem faz, quem administra essas páginas associadas, pelo DN, à desinformação ou manipulação?

A agência Lusa fez um questionário a responsáveis de vários desses 'sites' ou das suas contas nas redes sociais -- os 'sites' são a base para a disseminação das notícias que, em Portugal, se faz em especial pelo Facebook.

Aí, raramente há nomes. As respostas obtidas, por email ou mensagens de Facebook, também raramente têm um nome ou uma assinatura. Contactos telefónicos, nem um.

Numa troca de mensagens no Facebook, um responsável de Bombeiros 24 -- a conta no Facebook tem 331.152 seguidores -- afirmou à Lusa que o 'site' "não desinforma nem manipula", que a "veracidade dos artigos é sempre verificada antes da sua publicação".

A pergunta era se "tem a consciência de, através de um 'site' desta natureza, poder estar a desinformar e/ou manipular quem o lê?" e, como noutros casos, a mensagem não tem assinatura.

"Deviam-se preocupar com os 'sites' que realmente publicam notícias falsas. Claramente existe um ataque ao site 'bombeiros24' devido à sua popularidade", respondeu.

E quanto às alegações que associam o 'site' a 'fake news', a resposta foi: "São acusações falsas e não fundamentadas. Os artigos publicados até hoje contra o 'site' baseiam-se apenas em suposições".

Tal como outras páginas, o Luso Jornal 2015 recusa que se dedique a fazer 'fake news', em mais uma resposta que não é assinada.

"Como não produzimos informação e simplesmente a republicamos, não considero manipulação. Acredito que só os menos informados poderão ser manipulados. E, nos dias de hoje, com o acesso a tudo e mais alguma coisa pela internet, só é manipulado quem quer. Existe sempre forma de sabermos a verdade", lê-se na resposta.

Nenhum dos 'sites' que respondeu à Lusa deu informações sobre o seu financiamento, mas garantiram não publicar mensagens nem de forças políticas, dirigentes, ativistas de movimentos políticos, ou de empresas para se associar a causas ou divulgar posições.

"Mesmo que o fizessem não teriam qualquer 'feedback'", afirmou o responsável de Bombeiros 24.

O Luso Jornal 2015 admite os contactos, mas a maioria das vezes ignora-os. "Na maior parte das vezes não publico por variadas razões", lê-se na resposta dada à Lusa.

Relativamente aos media institucionais, o responsável desta página na Internet teoriza e propõe-se "falar de consciência" e se têm "essa consciência" de estar a desinformar ou manipular.

Como o Bombeiros 24, afirma que os seus artigos "têm fonte em jornais nacionais de renome e internacionais".

"Se esses desinformam e manipulam, este também o faz, como é obvio, mas só é influenciado quem quer nos dias que correm", insistiu, questionando: "Os media nacionais não desinformam? Não manipulam? Esses média publicam só conteúdo dentro da linha deles, certo?".

Outro 'site', Vamos lá Portugal, que tem 834.123 seguidores no Facebook, não respondeu às perguntas, dizendo apenas estar interessado numa parceria. E mais de uma dezena pura e simplesmente não responderam ao questionário.

 

Nuno Simas